2020 teve farta produção de resíduos. Que tal usar essa matéria-prima de modo sustentável?

por Cobi Cruz

Em sua obra-prima, a Divina Comédia, Dante Alighieri coloca já na entrada do inferno uma frase bem conhecida: “Deixai toda a esperança, oh vós que entrais”. Nesse cartaz diabólico, o gênio florentino sintetiza que entre todos os mais terríveis castigos imagináveis, o primeiro, o pior deles, é a desesperança. Na verdade, somos feitos daquilo que acreditamos em nós e nos outros. Tirando isso, nos tornamos tristes seres atormentados, andando por aí no piloto automático da vida.

Sendo assim, que tal encararmos este 2021 sem deixar para traz, nos escombros de 2020, nenhuma de nossas crenças? E ir em frente enxergando a luz já no começo do túnel, até porque caminhar no escuro, além de nada divertido, pode nos levar a uma repetição dos tropeços passados.

Para início de conversa, podemos deixar de ver 2020 como a porta do inferno. Na verdade, a análise desse ano caótico nos ajuda, no mínimo, a iluminar uma série de fatores que, até então, estavam escondidos nas trevas. O que já era ruim, revelou seu pior sem disfarces. O que era bom brilhou no meio do caos, como um farol, reforçando nossas reservas de humanidade.

E o que o movimento orgânico tem com isso? Tudo. O conceito da sustentabilidade permite que vejamos os erros no Brasil e no mundo diante da crise sanitária, política, econômica e moral não como simples acúmulo de lixo, mas como um bom insumo para as nossas compostagens. E se 2020 deixou muitos resíduos abandonados pelo caminho, alguns deles francamente malcheirosos, cabe a nós fazer a devida reciclagem, para dessa matéria-prima extrairmos adubo, energia, luz e vida.

É claro, também, que precisamos ter muito cuidado e clareza na hora de examinar o que sobrou desse 2020. Junto com o material orgânico, muito lixo tóxico foi produzido, na forma de intolerância, violência, egoísmo, ignorância. Mas, inclusive aí, precisamos mostrar a firmeza de nossas convicções, separando esses elementos inaproveitáveis em espaços nos quais ofereçam menos perigo à nossa maior natureza, a natureza humana.

Luz no começo do túnel? Sim! Bora acender?

 

 

Cobi Cruz, é diretor da Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos

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