A Biodinâmica e a dignificação do agricultor e da cultura agrícola

Por Conceição Giori,

Fazenda Giori. Originalmente publicado no Calendário Biodinâmico 2023

Todo agricultor é um artífice e um artista inato.

A compreensão de que agricultura é a mais nobre das artes conduz o agricultor à compreensão de sua própria natureza artística.

Agricultar não significa apenas trabalhar a terra, significa antes a arte de cuidar e de cultivar a terra, ajudando-a em seu processo produtivo e sendo ajudado por ela a descobrir sempre novas aptidões produtivas.  

A palavra artífice reúne bem as qualidades e responsabilidades de quem não apenas realiza uma atividade de trabalho, mas que na realização dessa atividade tem no papel criativo e na sensibilidade de perceber o ambiente à sua volta a parte mais importante da sua relação com o que convive: a terra e os frutos que produz ou a vida que ela sustenta.

Essa condição lhe faz pesar sobre os ombros a responsabilidade do criar, mas também lhe confere a dignidade e a importância de ocupar a nobre posição, no arcabouço de afazeres humanos, de ser o instrumento de constante criação dos meios de vitalidade e de saúde para os seres humanos e todo o seu habitat.

A biodinâmica e seus princípios, por exigirem que o olhar sobre o trabalho que faz seja um olhar de artífice, devolve ao agricultor a importância e a dignidade de quem tem o desenvolvimento, reflexão e trabalho duro como objetivos permanentes de sua atividade.

Essa constante relação do artífice com o seu material de trabalho é uma relação que envolve a experiência e a permanente experimentação, como pressupostos do desenvolvimento de sua nobre tarefa.

Não mais como um ser submisso cegamente aos ditames das experimentações de laboratório e às imposições mercadológicas que oferecem soluções monolíticas e simplistas, muitas vezes às custas do desgaste do meio-ambiente, o agricultor biodinâmico aprende todos os dias que seu olhar crítico, sua experiência e sua sabedoria ancestral são ferramentas tão importantes quanto a força de suas mãos.

Não é à toa que Rudolf Steiner via o agricultor como um pesquisador por excelência no campo prático, porque o agricultor com uma autêntica relação com sua terra desenvolve seu trabalho de forma muito mais sábia do que toda especulação científica, de modo que a ciência, como a conhecemos, é que deve nutrir-se da experiência e percepções do agricultor, que, juntas, constituem-se em uma potente fonte de sabedoria sobre a terra, logo, uma “sabedoria diante de Deus”.

Seguindo as palavras de Steiner, o que empresta sentido ao mundo é a ação humana dirigida por sabedoria e amor.

Quando é dada ao agricultor a liberdade de pensar, sentir e agir, ele manifesta no mundo físico e suprafísico todas as energias cósmicas e celestes que sublimam num entrelaçar profundo de sentido e propósito as energias terrestres.

O desenvolvimento de pesquisas em suas próprias unidades agrícolas de forma prática e autônoma deve ser parte do dia-a-dia do agricultor e dos organismos agrícolas biodinâmicos, pois será a partir da construção dessas experiências que surgirão soluções cada vez mais eficazes para que a agricultura cumpra seu papel de alimentar o ser humano, o próprio solo e de conectar as forças do universo à da natureza terrestre.

Só por isso, se nada mais se quisesse dizer, se deve olhar a biodinâmica como mais do que uma modalidade de agricultura, uma “pegada” ecológica ou uma escola de teorização dissociada da prática, mas como uma impulsionadora para a descoberta da importância do campo, do meio rural, na regeneração do Planeta e dos seres vivos.

A agricultura biodinâmica é a porta para o encontro do agricultor com sua missão mais nobre: servir de facilitador e cocriador de um espaço de vida coletiva com mais dignidade e autovalor. E somente uma figura dignificada pode contribuir para dignificar o meio em que vive.

Esse é o papel sublime da biodinâmica, trazer luz à especial condição de ser agricultor, desnudar a nobreza dessa profissão e a dignidade de toda e qualquer cultura agrícola, porque a biodinâmica diz que toda vida é boa, e todo ser vivo tem potencial de gerar saúde e equilíbrio.

Sendo assim, não há cultura melhor ou pior, há modos de cultivos diferenciados e é justamente essa diferenciação no cultivo que irá definir se nos alimentamos realmente de alimentos dignificados ou não.

O artífice, no domínio de seu conhecimento como responsável pelo organismo ou individualidade agrícola, tem tanto a responsabilidade pela regeneração real e consistente do Planeta quanto a capacidade de produzir alimentos que sejam portadores de saúde para a terra e para o ser humano.

Se a artesania agrícola envolve equilíbrio em seu organismo, é lógico entender o seu papel na disseminação desse mesmo equilíbrio para o que está no entorno próximo e distante da fazenda, quinta ou sítio biodinâmico.

Nesse aspecto, não importa a dimensão do espaço em que se trabalha em que a agricultura se dá, importa a potência com que ela acontece.

Tudo isso depende, portanto, de que o agricultor biodinâmico se veja e se reconheça como artista e como artífice, como o constante construtor da harmonia entre a terra e o universo, a trazer saúde para si, para seus frutos e para a humanidade.