Plataforma digital PLA reúne serviços para o consumidor final, para produtores de orgânicos e em transição

Plataforma digital PLA reúne serviços para o consumidor final, para produtores de orgânicos e em transição

Buscando a produção consciente e a inteligência de mercado para uma cadeia produtiva cada vez mais orgânica e sustentável, pensando na qualidade de vida gerada por meios ecológicos que impactam de forma positiva a saúde e o ecossistema, a plataforma digital PLA (sigla para Produtos Livres de Agrotóxicos) chega para revolucionar o mercado de vendas de alimentos saudáveis online.

"Nosso objetivo é integrar com transparência e credibilidade todos os meios dessa cadeia, desde o manejo da produção até o momento em que o alimento chega no consumidor final, além da conscientização coletiva para a produção e consumo de alimentos mais saudáveis com a redução da utilização de agrotóxicos em nossos produtos", nos conta André Pereira, fundador e CEO da empresa. André acumula uma vasta experiência com os orgânicos, é produtor e distribuidor de orgânicos no Brasil e identificou nos últimos anos a necessidade de impulsionar a transição da alimentação convencional para cada vez mais saudável, livre de agrotóxicos.

Percebeu que a iniciativa poderia ser desenvolvida através de uma plataforma digital de vendas e distribuição de produtos cada vez mais saudáveis e sustentáveis. É ele quem nos conta como atua a pla.eco.br, a seguir.

"Sem dúvida nenhuma o setor de orgânicos tem uma papel muito importante nesse momento porque a qualidade de vida das pessoas está em jogo, a vida em si está em jogo. É um momento importante para toda a raça humana, tem a ver com a continuidade dessa raça. Consumimos muita coisa que realmente não agrega em nada e pelo contrário, até atrapalha, sobrecarregando o fígado, o baço, todo o sistema digestório e se não tivermos maior e melhor consciência em relação ao alimento que consumimos, realmente pagaremos uma conta que ainda não conhecemos o preço.

Como raça, como seres humanos ainda somos muito infantis, não conhecemos as propriedades de todos os alimentos na sua íntegra e também não conhecemos os malefícios que estes agrotóxicos podem trazer a curto, médio e longo prazos.

Pensando nisso, desde 2014, viemos construindo soluções que possam equiparar, trazer esse alimento orgânico para mais perto do alimento convencional nas questões financeiras, no valor do alimento.

A nossa história nasceu, lá no início, com a "Plural Bio" e a "Só Orgânicos". Agora utilizamos toda essa história e resultados no produto chamado PLA - Produtos Livres de Agrotóxicos. O PLA é uma plataforma digital.

Nós transformamos a Plural Bio e a Só Orgânicos e toda aquela cadeia que tínhamos há anos em alguma coisa um pouco mais ampla que visa cada vez mais retirar o uso do agrotóxico em pequenas escalas até chegar num produto absolutamente livre de agrotóxicos que é uma definição lato sensu do orgânico.

Na plataforma PLA nós identificamos através de laudos e análises o que tem naquele produto e se ainda tem traços de agrotóxicos, identificamos e entregamos a informação, ou seja, o nosso compromisso é de transparência.

Trocando em miúdos quando você compra um alimento nele vem escrito "sem glúten", "não contém traços de glúten" e um celíaco pode consumir aquele produto porque existe informação transparente no rótulo.

No nosso caso, o PLA elenca todos aqueles agrotóxicos que são colocados no cultivo daquele alimento, a gente faz o laudo e análise com a resposta: "Esse alimento contém traços destes e destes mas não contém este, este e aquele", e por uma tabela de periculosidade você fica em até 75% de agrotóxico, em até 50%, em até 25% ou totalmente livre de agrotóxico.

Desta forma acreditamos que podemos trazer para o consumidor um poder de escolha e hoje sinto que a informação é o melhor meio que temos no século XXI para fazer isso aliado a praticidade de nossa plataforma digital.

Vamos com isso criando possibilidades para que essa balança se equilibre no primeiro momento e depois que ela se equilibre para o lado mais benéfico, ou seja, que as pessoas passem a comer cada vez melhor numa cultura onde a gente deveria, ou deve, descascar mais e embalar menos.

Eu não tenho nada contra produtos industrializados, não sou radical e não prego o radicalismo porque todos os opostos se desequilibram e a busca é por um equilíbrio constante.

Se a gente puder descascar mais alimentos livres de agrotóxicos a gente está investindo em saúde e essa saúde é considerada, inclusive saúde pública.

Quanto menos doentes menos necessidade de hospitais, quanto melhor estivermos mais potencialidades desenvolveremos.

É um dos benefícios deste século, onde podemos usar informação e tecnologia de maneira mais benéfica e desintermediar algumas cadeias. Se você puder pegar esse alimento na mão, olhar o que contém e fazer sua escolha consciente nós estaremos atingindo nosso propósito.

Tal e qual as indústrias hoje fazem com algumas coisas como por exemplo eu citei, o próprio glúten.

Esse foi o momento que a gente entendeu que era a hora de entrar com este tipo de força para poder inverter essa curva. Entre o que é orgânico e o que não é orgânico tem muita coisa boa. Se a busca da evolução humana é ampliar o seu grau de consciência então cabe a nós conscientizar cada vez mais o consumo.

Nesse nosso caminho de orgânicos conhecemos muitos produtores no Brasil indo até a América do Sul e percebemos que muita gente já produz e gostaria de produzir de forma orgânica mas ainda não tem o selo por conta dos custos dessa certificação. Além das barreiras naturais de burocracia.

Você pode estar apto por um lado mas não por outro. Vou citar um exemplo da agricultura familiar onde se você for incluir dois ou três funcionários que não sejam de sua família necessariamente você precisa que estejam segundo as normas da CLT e isso abrange o contrato de trabalho específico.

Se ele não tem condições de contratar segundo a CLT e preencher todos os requisitos que sejam de ordem burocrática, sem dúvidas esse produtor não conseguirá o selo de certificação.

Entretanto isso não invalida o alimento dele, não invalida todo o trabalho que ele fez como produtor, nessa hora colocamos esse produtor em seu devido lugar. Ele não tem o selo, mas o alimento é bom, esse alimento é próprio para consumo. Vamos dar visibilidade para essas pessoas.

Notamos ao longo do trabalho que pessoas que entraram no mundo dos orgânicos tiveram as suas barreiras, alguns não conseguiram transpor, mas os alimentos eram bons. Por que não prestigiar esse bom alimento?

Foi nesse sentido que compreendemos que podíamos fazer melhor e entregar essa escala. Daí inverter gradualmente essa curva, que está em todos os sentidos, dentro do supermercado, está dentro da roça, essa curva está em todos os lugares.

A nossa plataforma é um convite para os produtores apresentarem ao mercado seus produtos além de disponibilizar uma análise desses produtos e entregar ao consumidor um atestado do que contém e do que não contém. Ela não entrega um rótulo terminativo, é como se você recebesse um check list: para produzir este alface usa-se isso, isso e isso, e neste alface aqui contém isso e isso mas não contém aquilo e aquilo outro.

A partir daí o consumidor faz a escolha. É bom para o produtor que produz com melhor qualidade. é bom para o consumidor que consome em melhor qualidade, e gasta menos por isso.

A bandeira do Brasil carrega uma frase incrível: ordem e progresso. Vejo a ordem como a informação que nos leva ao progresso seja lá no que for. Temos progresso numa produção mais consciente e a gente tem progresso num consumo mais consciente. A ordem está atrelada ao progresso. O que a gente quer é a ordem da informação.

É simplesmente complexo e complexamente simples.

A plataforma possibilita também que o consumidor compre diretamente do produtor através de cestas montadas entregues direto na casa desse consumidor."

"Cuidem-se, se deem o melhor, e esse melhor nem sempre é o que queremos, mas é o que precisamos. Só recebemos aquilo que entregamos. É uma questão de ressonância.

Se não dermos o melhor, se não nos permitirmos o melhor, não teremos o melhor. Conscientize-se, busque saúde que tem que ser uma saúde psíquica, emocional e física.

A felicidade de se sentir pleno fazendo uma escolha consciente.

Num momento de pandemia onde temos uma saúde pública debilitada, como melhorar?

Cada um fazendo a sua própria parte. Se cada um fizer isso, o coletivo fez.

Isso só é possível através das escolhas. Sem radicalismo."

André Pereira, fundador e CEO da plataforma PLA no Brasil

pla.eco.br

André Pereira. Créditos das imagens desta edição: PLA/Plural Bio

 


As Casas de Agricultura e o trabalho dos extensionistas rurais

Extensionistas Rurais. Créditos da imagem: Dayla Ciancio

 

As Casas de Agricultura e o trabalho dos extensionistas rurais

Por Antônio Marchiori, presidente da APAER – Associação Paulista de Extensão Rural

O serviço de extensão rural é fundamental para o apoio da agricultura familiar e para a agricultura orgânica. Esse serviço vai muito além da orientação sobre as melhores práticas para a produção orgânica, atua também na escolha das melhores estratégias para escoar os produtos e orienta para o planejamento integral das unidades de produção agropecuária que terão impactos significativos na conservação dos recursos naturais e na mitigação das mudanças climáticas.

A transição agroecológica para a agricultura orgânica deve ser baseada na melhoria dos processos da produção ao consumo. É diferente da agricultura convencional, que é principalmente baseada no uso de insumos externos.

Para melhor entender como melhorar os diversos processos, o diálogo e a convivência entre os extensionistas, produtores e consumidores é fundamental. A orientação para a introdução de produtos orgânicos na alimentação escolar e o apoio para implantação de Sistemas Agroflorestais são dois exemplos importantes de onde e como a presença do extensionista rural pode trazer benefícios. Colocar os alimentos orgânicos nos projetos político-pedagógicos das escolas traz resultados de curto, médio e longo prazos. Os sistemas agroflorestais representam uma revolução viável para uma nova relação entre as atividades produtivas e os recursos naturais.

A APAER foi criada em 2012, por um grupo de extensionistas com uma visão progressista, que enxergaram que uma nova agricultura precisaria também de uma nova extensão rural. Desde sua criação a APAER já realizou diversos seminários para debater as estratégias mais eficientes de promover a extensão rural. No seu 7º seminário realizado em 2019 a APAER trouxe para debate as conexões entre a Agricultura Regenerativa e a Segurança Alimentar.

Ao longo do ano de 2020, em conjunto com diversas instituições parceiras, promoveu diversos eventos digitais com a presença de profissionais de renome no âmbito nacional, debatendo ferramentas de extensão rural e temas como economia solidária, tecnociência, comunidades tradicionais e a importância das questões de gênero no meio rural.

Um desses eventos deu origem ao E-BOOK ”Mulheres quilombolas: territórios, identidade e lutas na construção de políticas públicas”, editado pela APAER em conjunto com o Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, Sementeia e Sempreviva Organização Feminista.

O uso mais intenso das mídias sociais para superar os desafios do distanciamento social mostrou o quanto a proximidade física, a convivência e as atividades presenciais individuais e em grupo são importantes e essenciais para que os serviços que dependem do extensionista possam ocorrer em toda a sua plenitude, para que a extensão rural tenha eficiência, eficácia e efetividade. Estamos muito preocupados com o futuro da agricultura familiar em São Paulo.

A agricultura é uma atividade de risco e as mudanças necessárias para uma nova agricultura não vão acontecer se ficarmos dependendo dos desejos do livre mercado. As Casas da Agricultura estão fechadas há mais de um ano. O atendimento digital imposto pela pandemia mostrou que a perda de qualidade dos serviços de extensão rural feitos via telefone e via meios digitais é brutal – a agricultura familiar de São Paulo foi abandonada. 

O papel de jornalistas conscientes da importância da extensão rural abriu espaço significativo para o assunto na mídia, para alertar a opinião pública. Substituir a extensão rural feita de forma presencial por atendimento via telemarketing e outros canais digitais é uma proposta tão absurda que o governo teve que recuar da publicação do decreto que fechava as quase 600 Casas da Agricultura da CATI.

A extensão rural da CATI está sofrendo na atual gestão, a sua maior ameaça em mais de cinquenta anos de história. A falta de apoio para a agricultura familiar poderá trazer vários reflexos – aumento no preço dos alimentos (que já está acontecendo), piora na gestão dos recursos naturais,

impactos na quantidade e qualidade dos recursos hídricos. Como diz a sabedoria popular – “A gente colhe aquilo que a gente planta - Quem semeia ventos colhe tempestade”. Os impactos da falta de apoio para a agricultura familiar podem não ser percebidos imediatamente, mas nossas perspectivas para um futuro próximo não são nada boas.

É preciso ficar antenado nas exigências do consumidor. A extensão rural precisa atuar nas formas de produção e nas formas de comercialização - onde os resultados aparecem mais rapidamente.

É fundamental enxergar que a agricultura familiar do Estado de São Paulo é uma das mais diversificadas do Brasil. São Paulo fica em uma região de transição do clima tropical para o subtropical, com uma geografia que proporciona ambientes variados, que podem ser aproveitados para diferentes vocações agrícolas, conforme mostrou estudo feito pela APAER.

Precisamos fortalecer os circuitos curtos de comercialização e os sistemas participativos de garantia, precisamos de apoio para a adoção da transição agroecológica e para apoiar a grande quantidade de produtores que têm interesse em adotar a forma de produção orgânica.

Outro aspecto importante é o apoio a Associações, Cooperativas e iniciativas de economia solidária.

Consultoria independente do Banco Mundial avaliou os impactos do Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável – Microbacias II realizado pela CATI. Essa avaliação mostrou que, no prazo de cinco anos, as mais de trezentas organizações apoiadas apresentaram um faturamento quatro vezes maior do que organizações semelhantes que não foram apoiadas pelo projeto de Extensão Rural da CATI. Estudo feito pela APAER observou que, em porcentagem do orçamento estadual, a Secretaria da Agricultura de São Paulo tem o segundo pior orçamento de todo o Brasil, menos que 0,3% - vive seu pior momento em mais de cem anos de história. Políticas estaduais voltadas para a Agroecologia fazem toda a diferença para o avanço da agricultura orgânica, como pode ser observado nos Estados do Rio Grande do Sul e Paraná.

Nossa esperança é que a visão neoliberal de estado mínimo e de privatização de serviços públicos essenciais como a extensão rural seja revista.

A política de isenção de impostos para agrotóxicos, por exemplo, precisa mudar – é difícil para a extensão rural e para a agricultura orgânica terem que ficar remando contra a corrente. Modernizar a agricultura é mudar as formas de produção e aproximar produtores e consumidores.

Extensão Rural é um processo educativo que deve ser baseado em relações de confiança.

Ferramentas digitais devem servir para fortalecer esses vínculos.

Não podemos deixar que a extensão rural em São Paulo morra – mais extensão rural é mais saúde.

Créditos das imagens: Dayla Ciancio


Esperança e desenvolvimento, as palavras que norteiam o trabalho com os orgânicos na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do governo de São Paulo

Esperança e desenvolvimento, as palavras que norteiam o trabalho com os orgânicos na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do governo de São Paulo

 

Por Kátia Bagnarelli, exclusivo.

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, há mais de 10 anos, tem várias ações realizadas com sucesso para capacitar produtores rurais para migrar suas atividades para a produção orgânica. De acordo com o Mapa, existem mais de 2.000 produtores rurais certificados no Estado e aproximadamente 1.000 novos na fila de certificação. A principal ação durante a pandemia é a aplicação do Protocolo de Transição Agroecológica que capacita os produtores ao processo de transição que deixa a agricultura convencional e implanta uma etapa preliminar de certificação orgânica. Este protocolo permite ainda que o produtor receba prioridade para as compras públicas. Conversamos com o Secretário do Estado, Gustavo Junqueira em exclusividade, acompanhe a seguir.

Jornal Onews: Como tem atuado a Secretaria?

Gustavo Junqueira: De maneira geral, desde o início da gestão do governador João Dória, nos reorganizamos para que não mais trabalhássemos a cadeia do milho, da cana, do leite, mas sim em verticais: vertical da sustentabilidade, vertical da segurança do alimento, vertical da infraestrutura e todas as iniciativas seja de pesquisa, seja de educação, seja produção rural, seja logística se encaixam dentro de uma vertical. Com isso conseguimos trazer uma integração muito maior entre todos que trabalham aqui. Os orgânicos entram dentro das verticais de segurança alimentar, de Pesquisa e Sustentabilidade porque temos um desafio muito grande em fazer o orgânico crescer no Brasil. Há mais de 10 anos a nossa área de pesquisa vem trabalhando no desenvolvimento de tecnologias, sementes, herbicidas, controle de pragas. Temos um departamento de sementes e mudas e produzimos aqui o milho orgânico, além de outras sementes orgânicas. No Instituto Biológico dedica-se trabalho a toda a parte de insumos e pesquisa para controle biológico. Ao invés de se usar o insumo químico, usamos controle biológico.

As grandes empresas de São Paulo e do Brasil que fazem o controle biológico usam tecnologia da Secretaria da Agricultura. Além disso, sempre houve discussão sobre certificação. A Secretaria deveria certificar ou não deveria certificar? Esse é um ponto que se debatia bastante aqui, o que nós fizemos foi entregar um pouco mais de organicidade nesse trabalho.

Criamos um grupo de trabalho específico para agricultura orgânica e através deste grupo várias iniciativas foram tomadas. A visão da Secretaria hoje é a de que nós temos dois tipos somente de agricultura no Brasil: a tecnificada e a não tecnificada, e isso vale para todos os tipos de agricultura, seja pequena, média ou grande, agricultura orgânica ou monocultura. Independente do que você for fazer tem que ter técnica, tem que ter tecnologia, tem que ter treinamento e o protagonismo é do setor privado. Não é o Estado que é líder no agro brasileiro. O Estado acompanha o que o setor privado faz, deveria acompanhar mais de perto, deveria acompanhar mais rápido mas não pode ser o líder no desenvolvimento.

Onews: Qual é a relevância dos orgânicos para a Secretaria?

Gustavo: O orgânico é novo, é moderno, contemporâneo? Sim, mas é principalmente um setor do agro onde se tem uma grande margem de lucro. Do ponto de vista de negócio é um bom negócio para o produtor. Se tem a necessidade de mais investimento, entretanto há um mercado que é crescente. Temos um pedaço desse mercado bastante interessante, só que ele é feito de maneira pouco profissional no Brasil. Por muito tempo se confundiu agricultura orgânica com o trabalho de produtores que fazem uma agricultura rudimentar, não necessariamente orgânica, que muitas vezes, acabam vendendo gato por lebre. A Secretaria se preocupa com isso porque este é um negócio que está no topo da pirâmide. Nós vamos fazer um trabalho muito bem feito. É um mercado que está crescendo e se você começar a ter produtos falsificados, porque é o que acontece, o cara vende o produto que é lindo mas não tem nada de orgânico - isso vai prejudicar o orgânico.

Convidei o governador João Dória para me acompanhar nos EUA em visita a Whole Foods e o governador me perguntou por que iria visitar a Whole Foods. Respondi que queria explicar qual é o planejamento, o que precisamos fazer para ter uma Whole Foods em São Paulo. Entendendo a Whole Foods o que eu mostro para ele é que nós temos que montar a base de suprimentos com todos os produtores, os protocolos, todo o ecossistema aqui em São Paulo para que dali há quatro anos (isso foi em 2019) algum diretor do Whole Foods nos EUA tenha a oportunidade de levar para seu conselho de administração a ideia de abrir um Whole Foods no Brasil.

Se nós não fizermos isso ele não vai ter nem a oportunidade. A partir dali começamos a trabalhar construindo esse programa. Aprovamos fomentar a cadeia de orgânicos com a infraestrutura da Secretaria.

 

Créditos das imagens oficiais: SAA SP

Onews: Qual o atual trabalho e posicionamento da Secretaria em relação as Casas de Agricultura no Estado?

Gustavo: O que estamos fazendo na Secretaria de Agricultura é uma grande reestruturação. Nós estamos passando por uma grande mudança tecnológica, a última reestruturação que a Secretaria teve foi em 1993 onde não tínhamos o plano real, produzia-se 67 milhões de toneladas de grãos. Na última safra foram mais de 250 milhões. Nós não tínhamos internet, não tínhamos whatsapp, era um outro mundo. Aquela estrutura era uma estrutura onde tínhamos várias Casas de Agricultura que já não eram tão usadas quanto na década anterior, de 70 e 80. A Secretaria em 93 tinha 10 mil funcionários, hoje ela tem 3 mil.

A estrutura física, a infraestrutura ficou muito maior do que a capacidade de utilização dela. O capital humano envelheceu, o capital humano que chegou não tem como ser treinado na estrutura anterior, ele precisa ser treinado numa nova mecânica, nós chegamos para olhar tudo isso e viabilizar um plano até 2030 de forma que organizamos a Secretaria para que ela atenda a essas demandas e desafios.

Estamos muito baseados em tecnologia, o extensionista é super importante mas ele precisa ser fundamentalmente treinado novamente, e também treinado sob a ótica de mercado, em relação ao que o mercado quer comprar, quais são as exigências de mercado, qual é o papel do setor privado, qual é o papel do setor público e como fazer disso um jogo de ganha ganha.

Fundamentalmente quando a gente fala de fechamento de Casas de Agricultura é uma transformação dessa Casa de Agricultura em profissionais móveis, porque você não precisa mais que o produtor vá até a Casa da Agricultura para emitir uma guia de transporte animal, você não precisa que ele vá até lá para ter uma declaração, ele pode a partir do telefone dele, do computador fazer isso remotamente.

O que ele, extensionista rural precisa é de um carro para que possa participar da vida desses produtores na sua atividade e não de um "cartório" para receber e autenticar o que o produtor faz. Essa é a transformação, e é óbvio que você não vai ter profissionais suficientes para cobrir todo o Estado, muita coisa precisa ser consolidada. O que entendemos por consolidado: existem no mundo dois grandes segmentos que são os mais digitalizáveis, a medicina e a agricultura porque os problemas se replicam. As doenças humanas ou doenças das plantas são parecidíssimas, o processo é o mesmo. A ideia é que a gente faça uma grande central de atendimento como estamos fazendo na medicina com a telemedicina. O produtor envia a dúvida e o problema para a central de atendimento e a central responde para o produtor sobre o problema e a forma de manejo adequado tanto para agricultura convencional quanto para orgânica. Em alguns casos não terão as respostas e estes casos são geralmente 20% de todos os principais problemas, nesse momento um técnico com uma caminhonete e um computador vai até o produtor verificar a demanda in loco. Só que este é um processo de mudança que leva tempo, no Estado tudo é lento. E obviamente as mudanças não são recebidas de braços abertos, elas são contestadas sempre e depois da transformação elas são reconhecidas como boas, mas até lá o debate sempre haverá.

 

Créditos das imagens oficiais: SAA SP

Onews: São Paulo tem feito trocas de saberes e de políticas públicas interestaduais?

Gustavo: Nós mapeamos a partir da cidade de São Paulo um raio de 500 km norte, sul, leste e oeste, onde temos mais ou menos 65% do consumo de tudo o que se produz no Brasil. É uma potência muito grande de consumo de alimentos. A gente tem trabalhado dentro da Secretaria de Agricultura na gestão do governador João Dória para que tenhamos mais produção local. Sem que haja qualquer barreira entre os outros Estados, mas que estes produtores locais tenham uma vantagem competitiva por estarem em São Paulo.

Não é um tema muito fácil, temos trabalhado muito nisso. Existe uma visão do TCE, por exemplo, de que você não pode privilegiar o produtor do Estado porque você estaria usando mal os seus recursos pois poderia comprar mais caro em São Paulo do que pagaria em outros Estados.

Eu penso diferente, penso que o fato de você estar em São Paulo perto do centro consumidor onde você vai ter uma pegada de carbono muito menor, vai ter um uso de energia menor, faria mais sentido, entretanto as regras são muito mais simplistas do que isso.

Temos desenvolvido aqui iniciativas com a Secretaria de Educação e Secretaria de Administração Penitenciária para que haja um pouco mais de compra dos produtores locais, dos locais que produzem orgânicos, estamos atuando nesse caminho.

Não é um caminho muito fácil politicamente, as amarras são muito grandes e eu sou da opinião que nós não podemos criar um mercado baseado na questão pública, acho que muita gente quer estes grandes contratos e quer fazer esses acertos, entendo, mas devemos olhar em como atingir as populações consumidoras e o fato é de que se a produção orgânica não for feita da maneira adequada, ou seja, na escala adequada como qualquer outra atividade do agro o produto acaba saindo mais caro sempre.

Onews: Como a Secretaria entende os incentivos ao agro orgânico?

Gustavo: A questão do incentivo à agricultura orgânica, em minha visão, passa muito por educação técnica. Os produtores precisam entender como eles vão ganhar dinheiro com aquele negócio. E aí tem um outro espaço que entendemos que é detrimental para todo o desenvolvimento desse agro mais conectado, mais moderno que atinja e melhore a vida dos pequenos produtores, que é a parte dos entrepostos de alimentos. Uma estrutura como a que temos hoje na CEAGESP que é ultrapassada, que não tem tecnologia, que não tem padronização, que não tem a qualidade que o consumidor espera - e qualidade não tem nada a ver com custo alto, atrapalha muito mais o produtor do que o consumidor, porque o produtor acaba produzindo de uma certa maneira porque o comprador dele - que é entreposto e são os atacadistas ou intermediários, não exigem melhorias. Durante a pandemia aceleramos várias iniciativas tecnológicas e uma delas foi o "mercado digital".

Trata-se do Agro SP Mercado Digital. É uma plataforma eletrônica que fica no agrosp.sp.org.br onde estamos cadastrando todos os pequenos produtores rurais, são mais ou menos 115 mil com registro de pequeno produtor, cadastramos o que ele produz, quando ele planta, quando ele vai colher e a partir desta base de dados fizemos uma parceria com a APAS (Associação Paulista de Supermercados) e ela então cadastrou todos os supermercados, mais de 5 mil supermercados na mesma plataforma com informações do que o supermercado quer comprar, quanto ele quer comprar e quando. À medida que você conhece o tamanho do mercado orgânico você vai ter também os produtores produzindo cada vez mais para aquele mercado e isso vem acontecendo e vem crescendo cada vez mais.

"Este é um momento super triste onde não só temos a tristeza da morte e da doença, mas um momento triste daqueles que não estão conseguindo se manter psicologicamente, é um momento onde temos pouca esperança.

Essa talvez seja a grande dificuldade por não enxergarmos quando esse processo vai terminar e a verdade é que nós acabamos perdendo muito do que a gente tinha. Uma das minhas grandes preocupações, porque eu tenho várias, é com o setor de restaurantes na cidade de São Paulo. É uma cidade única no que tange a gastronomia, que foi feita ao longo de muitas décadas, por famílias, por pessoas em estruturas pequenas onde seus filhos e netos se transformaram em grandes chefs quando antes eram apenas filhos de cozinheiros, nós não estamos conseguindo manter os restaurantes abertos e esse tecido social que criamos e que deu um diferencial para São Paulo, vai precisar ser reconstruído.

Essa reconstrução vai acontecer quando a gente souber que o problema acabou. As pessoas estarão todas vacinadas e virá um outro desafio que é a construção do novo.

Não acho que estamos vivendo um novo normal, acho que estamos vivendo o anormal e é no final desse processo que teremos que construir.

Isso vai exigir muita tenacidade, uma nova visão porque não vamos reconstruir o que nós tínhamos, teremos que entender como o que nós tínhamos foi construído e a partir daí construir algo novo, moderno,

com essa raiz e essa alma que a gente tinha aqui.

A mensagem é de esperança porque vai chegar ao final e iremos viver um período de grande crescimento tanto quanto foi no final da segunda guerra mundial. No momento em que sairmos dessa guerra que estamos vivendo, haverá inúmeras

oportunidades de crescimento.

Quando falamos de orgânico, quando falamos de alimento, de agricultura, certamente falamos de um dos principais players do mundo.

O Brasil mostrou na pandemia que nós somos um porto seguro da segurança alimentar. "


Poder da Terra, nutrindo o Brasil de forma acessível, orgânica e sustentável, na caixinha Tetra Pak

Poder da Terra, nutrindo o Brasil de forma acessível, orgânica e sustentável, na caixinha Tetra Pak

Filho de médico, o empresário brasileiro Daniel Feferbaum sentou-se um dia com seu pai e, juntos a uma bancada de outros médicos e nutricionistas, desenvolveram um exclusivo mix de nutrientes que inserido nos sucos de frutas naturais faz diferença em nosso organismo auxiliando em minimizar a fome oculta (carência não explícita de um ou mais micronutrientes no organismo) além de repor necessidades específicas nutricionais ausentes em nosso dia a dia alimentar.

Daniel se autodefine um empreendedor apaixonado com a missão de ajudar as pessoas a terem mais saúde durante toda a vida e por causa deste sonho ele fundou a empresa na qual é CEO e nos garante que todos os produtos que fabricam possuem muita ciência e inovação. O jornal Onews traz esse relato entusiasmado e vibrante numa história de vida contada por ele mesmo a seguir.

"Eu tenho duas paixões muito grandes, primeiro o empreendedorismo, eu adoro isso. Me formei engenheiro de produção, trabalhei dois anos numa consultoria entretanto me via sempre do lado de começar uma empresa, um negócio próprio. Antes da WNutritional eu tive outras empresas, primeiro uma de marketing promocional.

Tive nesta época a oportunidade de fazer um MBA nos EUA e foi lá que surgiu a ideia da WNutritional. Só que voltando dos Estados Unidos eu comecei uma empresa de design brasileiro, algo que ainda está muito em alta no exterior, estou falando dos anos de 2007, 2008.

Pensei então em levar o design brasileiro para fora do Brasil. Comecei uma fábrica de móveis com designers brasileiros, só que tive um probleminha que não estava muito previsto, que foi ao contrário do que temos agora onde o dólar nos favorece, naquela época o dólar desabou. Ele passou para R$1,50 ou R$1,90 em cotação e isso inviabilizou completamente a exportação, o nosso móvel era mais caro do que o móvel de primeiríssima qualidade italiano em dólar, por causa disso.

Permaneci com essa empresa e comecei a focar a venda para o Brasil, tivemos anos incríveis naquela época no país, o Cristo Redentor estava voando como um foguete nas capas das Revistas internacionais e foi super bacana.

Quando eu estava nos EUA, ia muito ao supermercado de fim de semana para fazer compras e via a quantidade de produtos saudáveis que se tinha por lá para se comprar. Produtos naturais, produtos orgânicos, desde barrinhas, bebidas, cereais e tudo o mais que a gente pode imaginar numa diversidade muito grande.

Não via isso no Brasil. Entendi que poderia ser uma oportunidade para o país. A fábrica de móveis estava crescendo no Brasil e a minha segunda paixão sempre foi alimentação saudável e estilo de vida saudável, amo isso! Corro quatro vezes por semana, faço pilates, faço musculação, tenho uma filha de nove anos e uma pequenininha de 8 meses.

A de nove anos é completamente incentivada ao esporte, fim de semana a gente anda de bike, vai para a piscina, durante a semana ela faz aula de tênis, faz natação, faz ginástica olímpica e eu adoro essa vida saudável. Como tem tudo a ver comigo comecei a estudar esse mercado que cresce muito anualmente.

Em 2012 isso me motivou a vender minha fábrica de móveis e com esse dinheiro começar a WNutritional. A nossa economia ainda estava super bem, começamos a sentir um reflexo pior a partir de 2013 e 2014. Começamos a desenvolver as nossas linhas de produtos com grandes desafios.

O primeiro desafio veio quando eu quis ter uma base científica para o que eu fazia, penso que não adianta o Daniel falar que esse produto é bom por causa disso, que ouvi dizer, minha amiga falou, está saindo na internet, não era isso que eu queria. Eu queria realmente ter uma base científica e hoje inclusive dentro do que estamos vendo nesse cenário de Covid, o que falta na cabeça das pessoas é a ciência de verdade, e é uma pena que falte. Minha ideia foi trazer profissionais de saúde para o desenvolvimento dos nossos produtos.

Trouxe e eles fizeram uma grande e séria pesquisa das nossas principais carências nutricionais. Com isso em mãos, nossa ideia era começar lançando um produto funcional, um produto que além daquele natural que as frutas trazem pudesse trazer mais benefícios pelos nutrientes que a gente adiciona.

Esse grupo desenvolveu esse produto baseado em pesquisas de Universidades dentro e fora do Brasil identificando as principais carências da nossa alimentação. O cálcio, pois não consumimos leite suficiente.

A vitamina D, que em nossa rotina quase não aparece, nós não tomamos sol suficiente.

Fibras, que principalmente o alimento industrializado perde durante o processamento.

O ácido fólico, que é super importante.

DHA que está presente na alga, que é o ômega 3, onde o peixe que comemos precisa comer a alga para que a gente tenha acesso ao ômega 3. Além da gente comer pouco peixe, o peixe que a gente come é de cativeiro, Não é o peixe que está solto lá no mar. O DHA tem muitos benefícios, é bem conhecido ao beneficiar o desenvolvimento cognitivo das crianças.

Para nossa linha infantil que já tínhamos em mente desenvolver, o DHA seria uma coisa super bacana.

Começamos a fabricar esses produtos, só que naquela época alguns destes ingredientes não podiam ser utilizados no suco. Foi preciso fazer um trabalho junto com nossos parceiros comerciais, os nossos fornecedores e com o Ministério da Agricultura para que a gente pudesse registrar os produtos no Mapa. Foi um trabalho de dois anos, entre a ideia de desenvolvimento até a primeira produção, estávamos em 2014. Lançamos então a primeira linha de produtos funcionais.

Hoje Life Mix é a nossa marca de bebidas funcionais. Temos ainda uma linha infantil com uma parceria que nos enche de orgulho, com Maurício de Sousa e a Turma da Mônica, sucos 100% naturais, veganos, é fruta que está lá dentro da caixinha com esses nutrientes. Os pediatras na ocasião especificaram que para uma criança crescer saudável - e crescer saudável abrange desenvolvimento mental, teríamos ali os ingredientes ômega 3, cálcio e vitamina D para o corpo. É portanto um suco super equilibrado para as crianças.

 

 

 

 

 

 

 

Sucos Poder da Terra na gôndola do supermercado, e licenciamento Turma da Mônica, duas grandes conquistas da marca.

 

Temos uma linha de baixa caloria na Life Mix que é uma linha hoje certificada pela Associação Nacional de Apoio aos Diabéticos, o diabético pode consumir esse produto, tem só 40 calorias por porção e os nutrientes para a melhor idade se beneficiar deles.

Temos uma linha de chás 100% naturais, chás funcionais, hibisco, chá verde, chá branco enriquecidos com fibras naturais, um produto 100% natural. Todos com aval de médicos e nutricionistas. Na época nos questionaram muito sobre quando iríamos produzir um produto Life Mix detox. Eu falava, nunca! As pessoas me perguntavam: Como assim?

A nossa equipe científica nos dizia que isso não existe, esse conceito detox é um conceito errado, não poderia ser utilizado.

E nós não lançamos, tanto é que dois anos depois das empresas focarem em detox e terem aquela venda expressiva, a Anvisa proibiu colocar essa nomenclatura nos produtos, e hoje você não encontra mais um produto detox porque é um conceito que não tem comprovação científica. Se não é comprovado cientificamente não é um produto para Life Mix.

Ainda tinha um mercado que me chamava muito atenção, pelo conceito e pelo crescimento global, que é o mercado de orgânicos. Foi aí que surgiu nossa ideia de lançar nossa marca "Poder da Terra". Uma coisa que me incomodava muito nos orgânicos era o porque ele tem que ser caro. Por que ele não pode ter o mesmo preço que um produto comum de prateleira? O nosso desafio então foi criar um produto que fosse 100% orgânico e acessível.

Temos hoje as nossas limonadas orgânicas que são produtos que vendem super bem, a nossa linha de mates orgânicos custam de R$6,90 a R$7,90 o litro. Se você comparar com o suco que está em Tetra Pak no supermercado que seja de qualidade, é mais ou menos o que esse suco vai custar.

A nossa linha "Poder da Terra" é uma linha que representa bastante para nós dentro deste conceito de acessibilidade. Não adianta o orgânico ser uma coisa para poucos, o orgânico tem que ser para muitos e essa é a nossa ideia, inclusive entendemos o conceito orgânico como esse: ele não é só o "para mim", ele é o "para mim", "para o planeta" e "para a comunidade". Tudo isso é importante e a marca Poder da Terra atende todos esses pilares do orgânico.

Em 2017, 2018, estávamos com duas marcas, aumentando alguns sabores, aumentando nossa presença em redes nacionais de supermercado, redes de varejo, quando em 2020 temos uma surpresa ingrata em todos os sentidos, para a empresa, para o país e para todas as pessoas que é a pandemia de Covid19.

O mundo começa a mudar, o perfil de consumo das pessoas começa a mudar, e não necessariamente porque as pessoas estão felizes e sim por necessidade, começamos a ver que a população começa a ter uma renda menor, as pessoas começam a perder os empregos, e começamos nós a pensar o que poderíamos fazer para que as pessoas continuassem a comprar produtos de qualidade só que mais acessíveis ainda.

Foi aí que surgiram duas ideias. Foram dois conceitos lançados rapidamente:

Um é um chá extremamente refrescante, 100% natural que chama FRIIZI, e é uma delícia. É um chá que se mistura com frutas, é um produto super diferente, não existe nada no Brasil igual, com um conceito de refrescância e que chega na gôndola entre R$ 5,90 e R$6,90 o litro. Fizemos um trabalho rápido de desenvolvimento deste produto, de posicionamento, de formulação, foi um processo colaborativo com 50 consumidores. No meio da pandemia nós mandamos produtos para os consumidores testarem, tudo feito com ferramentas online para que esses consumidores pudessem dizer o que gostaram, até em relação a embalagem. Nós enviamos 20 sabores diferentes para escolherem cinco. É engraçado, a venda hoje em dia é exata, 20% de cada sabor exatamente, sem variação. Desde que lançamos, em outubro de 2020, a venda para o consumidor foi super equilibrada, mas isso foi muito acertado por causa desse processo colaborativo que a gente teve com os consumidores. A ideia deste produto veio em abril, em maio começamos o desenvolvimento, em outubro já estava no supermercado.

O segundo produto chegou ao mercado em uma parceria com o influenciador Luccas Neto. Queríamos trazer um produto acessível para as crianças, com foco na imunidade. Nossa equipe buscou um estudo que foi desenvolvido na Inglaterra das dez principais vitaminas e minerais que a gente precisa consumir diariamente para aumentar a nossa imunidade. Pegamos 30% de cada uma daquelas vitaminas e minerais que o estudo indicava e colocamos nesse produto. Ele é um suco de caixinha, 100% natural, não tem aroma artificial ou outro ingrediente artificial, vendido a R$1,99 a unidade no ponto de venda.

Campanha da marca com Luccas Neto e Os Aventureiros.

 

Produtos de qualidade com preço mais acessível. Uma coisa muito legal é que nossos produtos, por serem desenvolvidos por médicos e nutricionistas, trazem um benefício muito importante para o paciente que está em recuperação hospitalar, é rico em fibras para, por exemplo, quem passou por uma cirurgia e está com constipação. O hospital é um canal super forte de vendas para nós e além dele outro canal muito importante são as escolas. As escolas, cada vez mais, estão preocupadas em dar uma alimentação saudável para as crianças. Life Mix Kids e Os Aventureiros atendem muito bem essa necessidade. Vendemos tanto para escolas diretamente quanto para a lancheira.

A principal categoria da lancheira da criança em frequência de consumo é o suco de caixinha.

Aqui um parênteses que eu sempre gosto de fazer para falar do suco de caixinha.

A caixinha é uma solução maravilhosa porque você não precisa inserir conservantes no produto, ela é prática, ela é sustentável e reciclável, a Tetra Pak tem planos maravilhosos com a rota de reciclagem, são programas de sustentabilidade. Muita gente cultua o suco de caixinha como uma coisa ruim por causa do conteúdo que diversas empresas colocam nesses produtos. Por isso é muito importante o consumidor, além de ler rótulos, saber o que está lá dentro da caixa.

Não condene a caixinha, condene o conteúdo da caixinha. Estamos falando aqui do Poder da Terra, uma marca maravilhosa, produtos 100% orgânicos, a Tetra Pak é perfeita para esse produto.

Para o Life Mix, um produto super funcional, cheio de benefícios, a embalagem Tetra Pak é a melhor que a gente encontrou. Alguns dizem que querem que o seu produto esteja numa embalagem transparente, pet, mas olhem a questão dos oceanos, a importância da sustentabilidade está aqui, agora.

Acho muito importante separar a caixinha do conteúdo dela. Eu, pelo menos, tenho muito orgulho dela e dentro da minha casa ela entra porque sei que estou fazendo um consumo muito mais sustentável do que se eu tivesse um pet, um vidro que para transportar é muito mais pesado e gera muito mais gás carbônico do que uma caixinha Tetra Pak.

Exportação

Estamos há sete anos na batalha da exportação e digo sempre que a venda é consequência. Chamo de batalha porque isso tem que ser uma coisa que faz primeiro parte da estratégia da empresa e exportar tem que ser foco da empresa.

Participei de muitas feiras, fui muitas vezes convidado pela própria Apex para participar de feiras de negócios, e o que eu vejo muito nessas feiras é oportunismo. Oportunismo de empresas que acham que vão chegar na feira, que aparecerá algum cliente que vai comprar cinco ou dez contêineres, que vai pagar antecipado e ali se encerra o trabalho.

Exportação não é isso e isso é o que prejudica o Brasil em relação a agenda de produtos que não são commodities, produtos de maior valor agregado. As empresas começam o trabalho e percebem que não é simples, param no meio do caminho ou não cumprem com aquilo que foi acordado com o comprador.

O segundo ponto muito importante é que quem dá o preço é o mercado. Temos que desenvolver um trabalho de muita rota, ir aos clientes, conhecer o mercado, conhecer a categoria, ver como os players se comportam dentro daquelas categorias, e entender o posicionamento de comunicação das marcas, posicionamento de preço, como os produtos estão expostos na gôndola, o porque o consumidor está comprando aquele produto. Entendido isso, aí sim, nessa reunião em que você tem oportunidade de sentar com o comprador internacional você tem que entender qual é a necessidade dele, e quais são os custos para atendê-lo.

Se vou atender o Walgreens, o custo de atender a esse comprador é muito diferente de atender o Sam's Club, Walmart, a Whole Foods ou qualquer outro comprador, é importante termos este tipo de entendimento para fazer uma precificação correta do produto.

Muitas vezes esse comprador vai falar que gostou da sua linha mas que queria um produto que tivesse por exemplo mais cálcio ou um sabor qualquer que você não tem, ele te pergunta se você consegue fazer. A gente não pode esquecer que às vezes uma rede lá fora pode representar a nossa indústria inteira no Brasil, o comprador é tão grande que se você não tiver essa flexibilidade ele não vai comprar de você, nem o produto que ele está pedindo e nem os seus produtos atuais.

Como é a minha entrega? É num CD? São vários CDs, vou nacionalizar o produto? Quais são os custos de marketing? Quanto custa para fazer o cadastro? Preciso fazer uma degustação? Quantas degustações preciso fazer? Qual o plano de marketing que preciso fazer na loja deste cliente?

Exportação é isso, um trabalho muito árduo, que precisa ser discutido muito com o cliente para entender as necessidades e custos da operação, além de ser muito preciso na entrega do produto.

A partir do momento em que o comprador comprou, precisa entregar exatamente o que ele comprou, no prazo combinado e da maneira que foi combinado. Aqui no Brasil temos muito o que aprender com essas feiras de exportação ainda, acredito que Apex faz um trabalho maravilhoso, eles estão sempre de portas abertas para atender. Não podemos esquecer que a Apex é um suporte, ela não vai fazer o trabalho por nós. Temos que ser muito profissionais nisso.

Os chineses são extremamente profissionais no que fazem hoje, países que são europeus que são voltados à exportação, na França, Alemanha, não existe a conversa de "eu acho que ". "Eu acho que" é 50% de chance de dar certo e 50% de chance de dar errado.

O comprador é preciso. O vendedor também precisa ser, isso é fundamental para exportação.

Temos orgulho de estar no varejo.

Não gosto de escutar que o varejo é cruel, que ele só pensa nele, que ele acaba com as empresas, realmente eu não acredito nisso.

Na minha experiência não vejo isso acontecer. O varejo principalmente nas grandes redes é muito profissionalizado.

Minha mensagem hoje é a de que estou realmente muito abalado,

tenho vontade de chorar com tudo isso o que está acontecendo à nossa voltacom três mil mortos por dia.

Nos falta solidariedade, a morte foi banalizada em nosso país, morrer ou viver tem sido a mesma coisa para a maioria de nós.

Isso tudo é muito triste.

Minha mensagem é a de que precisamos voltar a ter valores, a viver em comunidade, a ter um bom sentimento um pelo outro e reconhecer a importância de um para o outro.

Minha válvula de escape é o esporte, a alimentação saudável, a convivência com as pessoas envolvidas no mundo dos orgânicos e no dos funcionais que carregam uma energia muito boa, isso me ajuda muito no dia a dia.

É uma troca de energia boa com pessoas que querem um mundo melhor lá na frente. Vamos "resetar" a cabeça e voltar ao nosso básico, nos preocupando com as coisas importantes.

Morrer não é normal, o normal é vivermos e continuarmos lutando pela vida, precisamos refletir muito sobre isso nesse momento.

O que nós estamos fazendo com a nossa sociedade e com a nossa comunidade?"

Daniel Feferbaum, CEO da WNutritional detentora da marca de orgânicos Poder da Terra, com exclusividade para o Jornal Onews.

 

 


Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento trabalha para o "encontro" do setor e da população brasileira com os orgânicos

Virginia Lira, coordenadora de Produção Orgânica do Mapa durante a entrevista online exclusiva para o jornal Onews

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento trabalha para o "encontro" do setor e da população brasileira com os orgânicos

Por Kátia Bagnarelli com exclusividade

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou no dia primeiro de abril a atualização do regulamento para produção de orgânicos no Brasil. A nova portaria nº 52 atende às solicitações do setor e de técnicos e visa estimular a produção no país. O jornal Onews conversou com exclusividade com a coordenadora de Produção Orgânica do Mapa, Virgínia Lira que além do trabalho a frente da atualização normativa vem atuando para o fomento e a comunicação do setor com a população, mesmo com todas os desafios apresentados pela pandemia de Covid19. A seguir a entrevista na íntegra.

Jornal Onews: Do que se trata a portaria 52?

Virgínia Lira: Nós temos um compromisso com essa atualização permanente, justamente para trazer inovações, para contribuir para melhorar o trabalho de quem está fazendo a produção orgânica no Brasil. A atualização vem para trazer a norma para uma condição mais atual ligada com a prática da produção orgânica. Trazemos mais factibilidade de atuação dentro do setor e muitas inovações das substâncias e práticas. O regulamento traz um anexo com várias listas positivas, que são possíveis de utilização pelo produtor orgânico. Outra novidade é que vamos passar a atualizar esta lista mais rapidamente. Estamos com uma proposta de a cada 6 meses abrir uma janela para proposta de novas substâncias e novas práticas que vão sendo incorporadas dentro do regulamento também a cada 6 meses. Entendemos que estamos contribuindo para uma agilidade no processo incorporando essas inovações e estimulando-as para que sejam cada vez mais desenvolvidas tanto substâncias quanto práticas para alimentação animal, fertilização dos solos, para combate a doenças e pragas, etc. Sabemos que existe uma demanda muito grande por inovações, por novas práticas orgânicas e precisamos acompanhá-las, trazendo para normativa tudo o que surja de novo e que contribui para a agropecuária como um todo. Neste processo de atualização houveram várias contribuições, recebemos em consulta pública mais de mil contribuições de toda a rede de produção, de diversos cidadãos, mas principalmente das comissões de produção orgânica que existem em cada um dos estados brasileiros. Foi um processo demorado para analisar, houve uma grande expectativa por esta portaria, e neste primeiro de abril fizemos valer.

Onews: Quais tem sido os impactos da pandemia?

VL: A nossa última Campanha nacional de orgânicos foi um grande desafio porque houve uma mudança muito significativa em razão da pandemia. Nós tínhamos ações de impacto direto ao consumidor, buscando o encontro do produtor com o consumidor, alertando o consumidor para o papel importante de estímulo à produção que ele tem quando escolhe pelo produto orgânico, mas com a pandemia esse encontro presencial não foi possível, então as atividades comuns que vínhamos desenvolvendo com feiras livres, eventos, dias de campo, abordagem do cidadão nas áreas de circulação, ficaram impossíveis de se realizar. Ao mesmo tempo tivemos uma reação das comissões de produção orgânica que no meu ponto de vista trouxe um grande avanço em 2020, que foi a união de ações numa Campanha única nacional. Todas as comissões da produção orgânica se uniram para desenvolver um evento que foi de fato um evento de grande impacto porque tivemos palestrantes importantes, pessoas relevantes para a rede de produção orgânica e para todos os cidadãos brasileiros e esse movimento trouxe uma articulação entre as comissões para que o evento acontecesse, para que as melhores pessoas fossem chamadas com condições para conversarem entre si e colocarem cada uma as suas demandas e realidades. Isso foi bastante positivo provocado por este ambiente que a gente aprendeu a usar, que é esse ambiente online. Entretanto, a pandemia trouxe um efeito negativo muito forte para o cadastro nacional que é a reunião de todos os produtores que passaram pelos processos de regularização através dos três mecanismos de regularização para comercialização de seus produtos. Infelizmente diante da realidade que a gente vivencia, o encontro presencial, principalmente para os agricultores familiares e para os sistemas participativos que dependem do controle social que envolve visitas e reuniões entre produtores, ficou impossível de ser realizado. A entrada de novos produtores foi perdida durante todo esse período no ano de 2020, o crescimento que nós observamos de 2019 e 2020 foram as últimas entradas nos primeiros meses do mês, registramos um aumento de 4%. Para se ter ideia do potencial de crescimento que nós temos.

Onews: Quanto a políticas públicas, como estamos?

VL: As políticas estaduais são de extrema relevância. O que observamos no Paraná, vimos se multiplicando de alguma maneira em outros estados pelas políticas estaduais. Temos vários estados com políticas públicas de agroecologia e produção orgânica e nós temos a política nacional que existe desde 2013 com a sua institucionalização por decreto. Tivemos duas edições do Plano Nacional que é o lado executor dessa política nacional. É justamente o encontro de muitos esforços tanto dos Órgãos Governamentais que de alguma maneira transitam dentro da produção orgânica que é transversal envolvendo muitas áreas diferentes de atuação, encontrando com os esforços da sociedade e de toda a rede de produção orgânica. Nós temos um potencial muito grande de evolução, de desenvolvimento da produção orgânica no Brasil e de base agroecológica a partir da política pública que está aí, viva e vigente, mas precisamos de um esforço imediato para retomada porque o Plano Nacional foi executado até 2019 e desde lá perdemos essa estrutura em função das mudanças governamentais, mudanças de estruturas entre Ministérios. O Mapa reúne mais de 70% das iniciativas que estavam em andamento, temos um trabalho de casa dentro do Ministério da Agricultura bastante pesado para realizar e a nossa intenção é a repactuação dessas iniciativas porque elas são estruturantes, não são iniciativas de curto prazo, são iniciativas que precisam ser trabalhadas em médio e longo prazos. As iniciativas acontecem o tempo todo, elas não deixaram de ser realizadas mas é importante unirmos estes esforços para que os órgãos governamentais não estejam cada um gastando a sua energia em atividades semelhantes. A ideia de unir é justamente para reforçar as ações, trazer um melhor uso do recurso público e do direcionamento que a política pública pode nos dar.

É a perpetuação. Na hora em que promovemos esse encontro, o que acontece no Paraná com o PMO, por exemplo, é observado e é uma inspiração para outros estados na realização de algo semelhante. Tudo isso é muito importante e é o que conseguimos através da política nacional.

Onews: Como o Mapa entende o papel do consumidor final e a precificação dos orgânicos?

VL: O preço de orgânicos, na verdade, se move pela oferta. O que vai, de fato, mudar o panorama de preço alto é trazer cada vez mais produtores para dentro do sistema e ampliar essa oferta. A política pública das contas governamentais também interfere positivamente neste valor do produto porque você está trazendo e socializando o produto e os produtores que estão no sistema produtivo. Se bem valorizados e estimulados acabamos também aumentando a oferta a partir disso. Em relação aos insumos, quanto mais conseguimos ofertar substâncias, tecnologias para solucionar questões que são importantes dentro do sistema para a sua sustentabilidade, para manutenção da saúde do sistema, também traremos benefícios e diminuiremos o custo de produção daqueles itens, o que reflete no preço final. Precisamos estar sempre alertando a população de que precisamos praticar justiça no valor dos alimentos. O preço justo não é necessariamente o mais barato. O preço justo é aquele que valoriza o trabalho duro que o produtor orgânico tem no campo. Na verdade eles se doam para produzir os nossos alimentos e muitas vezes não são remunerados adequadamente, por isso é importante a gente alertar para essa questão da prática do preço justo e também a valorização do produto local porque a medida que eu consumir algo que não respeita a sazonalidade, não respeita a regionalização, o curto deslocamento desses produtos, minha atitude de consumo também interfere no preço que estou pagando.

Onews: Qual o papel da educação?

VL: Princípios agroecológicos são transversais e esse pensamento precisa ser construído, acredito que caminhamos para isso porque nós temos um despertar para a preservação ambiental, para a necessidade de uma produção sustentável que conversa e dialoga com o entorno e contribui para a qualidade de vida das pessoas. Os nutricionistas, os professores, precisamos atingi-los de fato para trazer a compreensão deste universo que muitas vezes não está muito próximo de nós que estamos na cidade. Trabalhamos desde 2010 numa política pública que é a de apoio aos Núcleos de Estudos em Agroecologia e Produção Orgânica, são os NEA. Estimulamos esses Núcleos para que sejam também transversais dentro da Instituição e os projetos que estamos fomentando são projetos que trabalham o desenvolvimento tecnológico, a ciência, a educação.

Trabalhar com as comunidades e produtores do entorno dessa Instituição para que eles também sejam incluídos no processo de desenvolvimento da educação e contribuam porque tem muito para ensinar. Trabalhamos o desenvolvimento científico e tecnológico e a transferência destes conhecimentos através da extensão rural. Os projetos precisam trabalhar estas três vertentes que é educação, ciência e extensão rural ao mesmo tempo. Tivemos um avanço muito grande com pouco recurso investido. Tivemos uma transformação muito grande de níveis tanto tecnológico quanto desse trânsito de informações dentro e fora da instituição de ensino trazendo luz para os estudantes e profissionais que estão próximos, além dos técnicos e professores que estão se envolvendo e conhecendo mais dos princípios tecnológicos e da produção orgânica. Começamos o trabalho com Instituições ligadas ao meio rural, as Instituições de ensino que tinham ciências agrárias, mas de 2010 para cá nós alcançamos Instituições de ensino tecnológico e que não necessariamente estão focadas no meio rural, como ciências sociais ou a própria pedagogia.

Onews: Como está a exportação de orgânicos?

VL: O exemplo com o Chile é exatamente o que temos buscado, um reconhecimento mútuo, é preciso que se desenvolva um trabalho entre países para que as nossas normas e as do país parceiro sejam comparadas e nesse processo de comparação exista um reconhecimento de que elas são suficientes para garantir uma qualidade orgânica. Isso foi feito com o Chile, mas é um processo demorado, infelizmente, não é algo que resolvemos com rapidez. Nós já iniciamos um trabalho para reconhecimento dentro do Mercosul que irá envolver os países que estão no Mercosul e outros que acabam participando do processo como observadores. Nós pretendemos atingir vários países das Américas neste esforço dentro do Mercosul e há iniciativas para um trabalho em conjunto com União Europeia e outros países da Ásia e África. Nossa equipe é pequena e de fato fica muito presa ao trabalho que o Ministério da Agricultura precisa desenvolver. O avanço nesse sentido é menor em razão da nossa capacidade operacional, do nosso tamanho de equipe que não dá para abraçar todas as iniciativas que surgem. Nós identificamos que este trabalho com o Mercosul vai trazer provavelmente benefícios e resultados que vão ajudar a dar os nossos passos de reconhecimento com a União Europeia porque já existe reconhecimento entre países do Mercosul e a União Europeia, então imaginamos que este esforço vai dar resultados ainda maiores quando pudermos concluir essa iniciativa. É um trabalho que exige bastante negociação entre os países, é algo que acaba envolvendo outros atores da área de negociação internacional que não se resolve com muita rapidez. Temos muitos desafios e estamos aprimorando nossas normas, a portaria 52 foi publicada, vamos iniciar um trabalho bastante extenso de revisão da Instrução normativa de número 19 de 2009 que fala dos mecanismos que trata justamente dos processos de certificação e declaração que é o cadastro nacional e será um trabalho extenso que certamente terá uma participação massiva da rede de produção orgânica e dos cidadãos brasileiros. Precisamos entender que o tempo é necessário para estas transformações. Nós também temos um trabalho que é trazer alguma identidade para este produto orgânico que está deixando o país. Por exemplo, temos certeza de que muito açúcar brasileiro orgânico deixa o país, mas no processo de saída o produto que é açúcar orgânico do Brasil só sai classificado como açúcar. Eu não tenho como saber que ele é um açúcar orgânico. Esse é um desafio que a gente tenta transformar porque é preciso haver uma codificação específica para podermos saber o que está saindo do Brasil de fato.

É o caso do extrativismo, do café e tantos outros produtos diferenciados que sabemos, azeite, castanhas, sucos, que estão deixando o país mas que nós não quantificamos hoje, infelizmente. Resolver essa ausência do Estado na quantificação desses produtos é um desafio grande. Nós precisamos dessa informação também para desenvolvimento de políticas públicas, de incentivos, reconhecimento mútuo.

Onews: Quando virá a regulamentação dos cosméticos orgânicos no Brasil?

VL: De fato este é um tema complicado e polêmico pois não temos ainda um regulamento específico e é por isso que não há como haver o selo brasileiro nesses produtos. A menção como produto orgânico contraria a lei do decreto 6323. De fato eles não poderiam nem estar usando a expressão "produto orgânico" nos cosméticos, mesmo aqueles que são importados. Isso contraria a lei do decreto.

Mas na verdade existe uma ausência do Estado em razão de que o regulamento não foi construído e publicado. Entretanto estamos trabalhando. Foi instituído neste ano um grupo de trabalho do Ministério da Agricultura com a Anvisa para a construção do regulamento. Nós já iniciamos as discussões, já estamos construindo uma minuta que deve passar por consulta pública. Faremos todo o processo regular para publicação desse novo regulamento. Nós estamos tentando trabalhar essa ausência justamente para trazer regulamentação para estes produtos e fomentar essa indústria. Todos nós desejamos que estes produtos alcancem de fato o consumidor mas é preciso trabalhar os aspectos que qualificam este produto como orgânico porque a matéria prima em si não é suficiente para qualificar um produto como orgânico, é necessário analisar todos os componentes desse produto e esse é o papel que está diretamente relacionado e é de competência da Anvisa. Por isso, estamos trabalhando em conjunto para alcançar este regulamento o quanto antes e espero que tenhamos esse resultado neste ano de 2021 ainda. Que possamos abrir consulta pública e em breve tenhamos esse regulamento para trazer desenvolvimento. Espero que possamos atender a demanda do setor, eles estão nos pressionando e com razão porque querem colocar seus produtos de maneira regular, séria, beneficiando toda a produção orgânica que está oferecendo essa matéria prima. Será algo que vamos conseguir resolver ainda neste ano de 2021 e talvez em 2022 com o regulamento publicado. O marco legal (selo de orgânicos) foi incorporado pelo Ministério da Agricultura e desenvolvido junto com a rede porque foi uma demanda da própria rede de produção orgânica, eles entenderam a necessidade de um regulamento nacional exatamente para coibir o uso indevido do termo "produto orgânico" que é uma marca coletiva, que envolve cadeias diferenciadas que vão desde o alimento básico como arroz e feijão até cosméticos. Em outros países os cosméticos não estão dentro dos regulamentos nacionais, a União Europeia trabalha exclusivamente com alimentos e as certificações são outras, são privadas e de reconhecimento, onde a população precisa confiar nesse selo. No Brasil nós incorporamos essa demanda, em nosso decreto os cosméticos estão incluídos, foi uma conjunção de diversos órgãos como Ministério da Saúde e Ministério do Meio Ambiente assinando junto conosco a parceria neste processo de regulamentação. É um passivo que estamos resolvendo com esse grupo de trabalho. Acredito que em breve vamos apresentar uma solução, mas lembrando que não é muito simples exatamente pela diversidade que os cosméticos envolvem, as diversas possibilidades de fórmulas e produtos. Nós constatamos em várias denúncias produtos que geram confusão e que talvez não devessem estar no mercado qualificados como orgânicos. Sem regulamento o Órgão público não tem um instrumento de atuação, o que nos traz uma fragilidade muito grande.

Lembrando que há uma grande equipe por trás de tudo isso, não estou sozinha de jeito nenhum, temos grandes servidores muito dedicados em todos os pontos do país que estão nos ajudando em todo esse trabalho de levar essa informação e essa responsabilidade do controle. Tudo está muito mais nas mãos deles, eu só coordeno a turma, o trabalho todo é realizado na ponta. Temos minha equipe que está aqui em Brasília e a turma que está aí nos estados "doando sangue" para as coisas acontecerem.

"O mais importante é nós observamos que há movimentos de crescimento, de desenvolvimento e de valorização do ser humano no nosso país, nós precisamos olhar para estes movimento com um carinho muito grande porque os agricultores e agricultoras que estão trabalhando no campo precisam ser valorizados, eles precisam ser reconhecidos pelo grande papel que eles desenvolvem produzindo os nossos alimentos e desenvolvendo um trabalho que é duro, que é pesado e que precisa de apoio e desenvolvimento tecnológico.

Nós, sociedade, indivíduos, contribuímos para isso no momento em que escolhemos um alimento orgânico para nossa casa não só pela nossa saúde mas pela saúde de todos, do planeta e de cada um desses agricultores e agricultoras que estão lá, dos jovens que precisam aprender a permanecerem e gostarem de trabalhar na terra para que isso também seja sustentável, para que continuemos a ter pessoas dedicadas envolvidas com a produção de alimentos.

Vamos valorizar esses produtores e produtoras que se dedicam para toda a nossa sociedade trazendo alimentos ricos e cheios de saúde e de cuidado, preocupação com o meio ambiente e com a qualidade de vida de cada um de nós.

Precisamos fazer com que isso seja enxergado para que as pessoas, do Brasil todo, olhem para o campo como algo de extrema necessidade e que precisa ser também um lugar bom para se viver e para trabalhar.

Precisamos valorizar o homem e a mulher do campo, sempre!" 

Virgínia Lira, coordenadora de produção orgânica do Mapa

Arte da XVI Campanha anual de promoção do Produto Orgânico de 2020, durante a pandemia

alto é trazer cada vez mais produtores para dentro do sistema e ampliar essa oferta. A política pública das contas governamentais também interfere positivamente neste valor do produto porque você está trazendo e socializando o produto e os produtores que estão no sistema produtivo. Se bem valorizados e estimulados acabamos também aumentando a oferta a partir disso. Em relação aos insumos, quanto mais conseguimos ofertar substâncias, tecnologias para solucionar questões que são importantes dentro do sistema para a sua sustentabilidade, para manutenção da saúde do sistema, também traremos benefícios e diminuiremos o custo de produção daqueles itens, o que reflete no preço final. Precisamos estar sempre alertando a população de que precisamos praticar justiça no valor dos alimentos. O preço justo não é necessariamente o mais barato. O preço justo é aquele que valoriza o trabalho duro que o produtor orgânico tem no campo. Na verdade eles se doam para produzir os nossos alimentos e muitas vezes não são remunerados adequadamente, por isso é importante a gente alertar para essa questão da prática do preço justo e também a valorização do produto local porque a medida que eu consumir algo que não respeita a sazonalidade, não respeita a regionalização, o curto deslocamento desses produtos, minha atitude de consumo também interfere no preço que estou pagando.

Onews: Qual o papel da educação?

VL: Princípios agroecológicos são transversais e esse pensamento precisa ser construído, acredito que caminhamos para isso porque nós temos um despertar para a preservação ambiental, para a necessidade de uma produção sustentável que conversa e dialoga com o entorno e contribui para a qualidade de vida das pessoas. Os nutricionistas, os professores, precisamos atingi-los de fato para trazer a compreensão deste universo que muitas vezes não está muito próximo de nós que estamos na cidade. Trabalhamos desde 2010 numa política pública que é a de apoio aos Núcleos de Estudos em Agroecologia e Produção Orgânica, são os NEA. Estimulamos esses Núcleos para que sejam também transversais dentro da Instituição e os projetos que estamos fomentando são projetos que trabalham o desenvolvimento tecnológico, a ciência, a educação.


O sucesso da Organic4 em São Paulo que favorece o paulistano e fortalece o setor de orgânicos

Equipe completa da Organi4 na empresa em São Paulo

O sucesso da Organic4 em São Paulo que favorece o paulistano e fortalece o setor de orgânicos

De acordo com o IBGE já somos 8,3 milhões de brasileiros em home office, o que significa que nos dividimos entre as inúmeras reuniões e tarefas do trabalho, as lições com os filhos e as necessidades inevitáveis dos cuidados com a casa onde nem sempre cozinhar pode entrar nos planos.

Buscar uma solução prática para se alimentar continua sendo a rotina de muitos brasileiros e foi pensando nesse consumidor que Teco Lauletta fundou a Organic4, uma empresa de comida orgânica, criativa, descomplicada, saudável e gostosa que chega congelada e portanto pode ser a solução ideal para quem vive atarefado ou atarefada.

Teco nem sempre foi do ramo da alimentação, formado em administração de empresas, trabalhou no mercado corporativo, durante 13 anos com montagens industriais, numa empresa de Engenharia. Essa experiência de vida lhe garantiu iniciar a Organic4 com um olhar humano e zeloso para com todas as partes do ecossistema.

O empresário Teco Lauletta

"Me encontrei um dia numa situação em que falei "Putz, eu não estou feliz fazendo o que estou fazendo", diz Teco durante a entrevista se referindo aos antigos trabalhos. "No primeiro momento tendo certeza do que eu não queria para minha vida, que já era uma coisa bastante importante, deixei as coisas acontecerem e foi quando surgiu a questão dos orgânicos ", continua ele.

Teco, assim como a maioria dos brasileiros começou a se alimentar de orgânicos por uma questão de saúde sem compreender bem o que estava por trás da agricultura orgânica como um todo em relação aos benefícios ambientais, sociais e econômicos.

Foi quando começou a estudar o ecossistema orgânico que o encanto apareceu e a decisão foi tomada como ele mesmo nos conta.

"Me interessei nessa época por conhecer como é esse mercado fora do Brasil, fiz pesquisas e fiquei realmente assustado com o que vi. Olhando para EUA, Europa, Austrália onde esse mercado é gigantesco, vi que tínhamos muito pouca coisa no Brasil. Estou falando de uns oito anos atrás. Me uni a um amigo e juntos mergulhamos num mundo totalmente novo querendo produzir alimentação. A Organic4 nasceu baseada nestes estudos e em nosso olhar empreendedor para o mercado. Dentre as opções que queríamos desenvolver, começamos a produzir papinha de bebê orgânica. Tivemos muita dificuldade em colocar em prática.

Nem eu e nem meu ex-sócio éramos pais então, por não termos filhos, precisávamos de testes de prova do alimento e não sabíamos quem iria provar o produto pois mesmo as pessoas próximas ficavam meio receosas, primeiro porque não é fácil achar pessoas que têm bebês na idade de comer papinha e quem tinha dizia que tinha cozinheira para fazer o alimento da criança, se recusando a experimentar.

A gente não tinha um produto licenciado, nem lançado ainda e ninguém queria dar seu filho para ser cobaia. Começamos a esbarrar numa série de dificuldades e num dia, em nossas idas e vindas, nós tínhamos uma reunião e não tinha dado tempo de almoçar.

Pegamos na fábrica umas papinhas daquelas fases que já são mais comidinhas em pedaços, cada um de nós pegou umas três ou quatro, descongelamos e esquentamos, fomos comendo no carro. A nossa própria experiência com o produto foi maravilhosa e ali despertamos para fabricar um alimento que não fosse para bebê, poderíamos trabalhar melhor ingredientes e temperos, pois comida de bebê tem suas milhares de restrições. A proposta era oferecer um produto orgânico, prático para o dia a dia de São Paulo para quem tem uma vida super corrida e desde o começo nos preparamos para isso, cuidando de toda a organização da empresa como cozinha, fluxos, certificadora, adaptação do imóvel, etc.

Nós entendíamos que não existia o saudável de verdade, víamos muita coisa processada e muitas marcas falando que são saudáveis mas que não são realmente e poucas opções feitas com comida de verdade, sem conservantes, com ingredientes orgânicos.

Criamos e lançamos as nossas linhas e tudo o que fizemos a partir de então foi sempre ouvindo os nossos clientes, olhando para algumas tendências e praticando o que acreditávamos. Chegou o inverno, o cliente pediu sopa, criamos uma linha de sopas e no final das contas acabamos percebendo que a sopa vende super bem o ano todo e a partir daí fomos criando todas as outras novas linhas num processo constante. A

Organic4 tem quatro anos, todo esse período de estruturação, estudo e até entendimento do fluxo de cozinha com os equipamentos e tudo o mais foi árduo. Não é um caminho tão fácil, linear, as coisas não vão ficando claras, temos um monte de obstáculos, mas hoje estamos crescendo.

Não tenho mais um sócio, foi uma das dificuldades que enfrentamos. Tenho uma super equipe que é bastante engajada e digo que tenho muita sorte pelas pessoas que encontrei nesse caminho. Elas são muito dedicadas, gostam e acreditam no que fazem e me ajudam muito nesse trabalho de defesa, de fazer as coisas corretas em todas as relações que temos, seja com consumidor, fornecedor ou outras empresas. Fazemos um trabalho bastante sério nesse sentido de sempre tentar promover e ajudar o mercado de orgânicos a crescer.

A pandemia, embora triste e negativa para todos, deu um empurrãozinho para o nosso crescimento porque a partir do momento em que as pessoas começaram a se preocupar um pouco mais com a saúde, principalmente com a questão da procedência do alimento, o orgânico acabou respondendo a todas essas dores. Ele te entrega um alimento saudável com a procedência garantida e com todos os atributos íntegros que ele tem. É natural que o mercado esteja crescendo.

Ainda temos muito a melhorar no mercado de orgânicos, ele tem que buscar uma auto afirmação, o orgânico se coloca muitas vezes como o caçulinha dos alimentos ou como um nicho de mercado num momento em que ele já tem possibilidade de tentar ser locomotiva de todo um movimento.

De puxar outras empresas e outros setores. Nos falta ainda ajudar o consumidor a entender coisas básicas como identificar o orgânico ou qual é a diferença entre orgânico e convencional.

Sabemos em contrapartida que tem empresas que se aproveitam do vácuo do orgânico, são empresas que não tem certificado e que fazem um trabalho que eu não considero muito justo e nem bacana.

Acredito que a partir do momento que você não tem certificação você não tem garantia daquilo que oferece para o consumidor e não poderia induzir o consumidor a acreditar que você usa este ou aquele tipo de ingrediente, isso prejudica muito o setor."

Teco Lauletta aproveita as suas criações na cozinha da Organic4 para educar e conscientizar o consumidor e usa as embalagens sustentáveis e divertidas para isso. Em nossa matéria ele nos deixa uma mensagem final emocionante.

"Falando em alimentação a gente precisa resgatar o velho normal, e o que seria o velho normal?

Houve um tempo em que a comida era feita de uma forma sustentável, era tudo mais tranquilo e não tinha essa correria para tudo, essa coisa grande de transformar a produção animal num processo fabril, de você explorar o pequeno produtor, da monocultura para exportação com agrotóxico.

É lamentável, não tem como continuar como está. É necessário que as pessoas botem o pé no freio. É tão simples, mesmo morando em apartamento, você comprar um vasinho e plantar seus temperinhos, colocar ali suas verduras.

Resgatar o que a gente fazia há vários anos atrás, o velho normal.

Hoje em dia cada um está escondido atrás de sua própria tela. Me lembro como minha avó cozinhava, era um evento, ficava todo mundo na cozinha conversando, era super gostoso.

Uma volta ao passado seria o meu recado."

Ouça a entrevista completa no podcast na página do jornal Onews na internet.

Créditos das imagens: Organic4
Fachada da Organic4 em São Paulo. Créditos: Organic4

Mensagem Editorial Por Kátia Bagnarelli, editora e redatora deste Jornal

Mensagem Editorial Por Kátia Bagnarelli, editora e redatora deste Jornal

Mantendo o objetivo inicial deste jornal impresso e digital no Brasil, nós entregamos voz aos protagonistas da sustentabilidade e precursores dos orgânicos no Brasil.

A mensagem desta vez é resiliência com esperanças renovadas. Que os nossos jovens brasileiros possam identificar no agro orgânico a oportunidade de reconstruir a nossa Nação aqui, agora e no pós pandemia com a certeza de que receberão de volta econômica, social e emocionalmente os alicerces básicos para a sobrevivência e o desenvolvimento de si mesmos e de suas famílias.

Que sejamos sempre os cidadãos participativos, curiosos e vigilantes da boa prática no agro, no varejo, na comunidade. E que conscientes de nossos papéis em sociedade possamos caminhar agora mais unidos do que antes.

Sempre haverá uma oportunidade em recomeço, para todos nós.

Boa leitura, e se puder leia este jornal com uma criança.


A insustentável leveza de querer ser sustentável

Por Cobi Cruz

 

O movimento orgânico está tão firmemente enraizado na sustentabilidade que, às vezes, corremos o perigo de superestimar a compreensão da maioria das pessoas sobre esse conceito.

Esses dias, li matéria a respeito de uma imensa indústria de compensados, sediada na Amazônia que, lá pelas tantas, se declarava ecologicamente sustentável por praticar o reflorestamento em larga escala. Curioso fui pesquisar no site da empresa e verifiquei que, realmente, ela cultivava com muito orgulho milhões de árvores australianas (eucaliptos, para ser exato), dispostas em fila indiana em local que originalmente abrigava um bioma amazônico. Na verdade, era um gigantesco depósito de matéria-prima a céu aberto, de onde a madeira era tirada para – literalmente – virar pó e, depois, “sustentar” a produção de placas de MDF. Usei esse exemplo, entre muitos, não para expor a organização (por isso, aliás, não cito o seu nome) mas apenas para ilustrar duas constatações.

A primeira delas é que as empresas são cada vez mais cobradas em relação aos cuidados com o meio ambiente e, por isso, sentem necessidade, inclusive mercadológica, de dar explicações públicas à sociedade, ainda que, muitas vezes, de forma equivocada.

A segunda é que “sustentabilidade” vem se tornando uma espécie de palavra curinga, desconectada do contexto ecológico em que ela ganhou seu significado. Então, que o movimento orgânico não economize na hora de divulgar seus valores.

As pessoas, as mesmas que podem pressionar empresas e governos (e, inclusive, ocupar cargos nessas estruturas), precisam saber que “sustentável” é o ciclo da vida. E que nossa sobrevivência depende inteiramente desse delicado equilíbrio de forças, dessa grande rede que interliga todos os organismos do planeta.

Constatação irrefutável da ciência, o conceito de ação/reação deveria ser ensinado a todos desde a primeira infância, fortalecendo o sentido de responsabilidade perante nós mesmos e às coletividades, incluindo aí as de não humanos. Muitos, simulando profundidade e fingindo preocupação com o semelhante, dizem que não é possível oferecer uma qualidade de vida aceitável a todos sem avançar mais e mais sobre as reservas naturais.

Com isso, sugerem, nas entrelinhas, que a sustentabilidade tem algo de elitista, de privilégio para poucos. Essa proposital confusão nasce errada já na base, supondo que as únicas maneiras da humanidade progredir são entronando a cobiça, a ganância, o egoísmo, o consumo inconsciente e o desprezo pelas futuras gerações. Por essas e muitas outras excelentes razões precisamos divulgar cada vez mais os verdadeiros sentidos da sustentabilidade e espalhar que, de maneira alguma, ela significa voltarmos às cavernas ou morarmos em cabanas de folhas no meio do mato. Pelo contrário, sustentável é a mais extrema modernidade, a mais avançada visão de futuro, aquela que joga pela vitória da vida.

Hoje, a tecnologia nos permite dar novos passos no rumo de uma produção que não seja inimiga da humanidade. Integrados por ela, podemos valorizar as comunidades locais, unidas por laços de história, cultura e afeto.

Em lugar do vale tudo que torna os gigantes ainda mais perigosos, podemos estabelecer a cooperação, que potencializa o uso de recursos e reduz desperdícios. Em vez de dependermos de estruturas desumanizantes, podemos nos conectar uns aos outros para garantir melhor distribuição da qualidade de vida.

Podemos, essa é a palavra. Uma palavra que deve ser entendida de forma sustentável.

 

Cobi Cruz, é diretor da Organis - Associação de Promoção dos Orgânicos

cobi@organis.org.br www.organis.org.br

Rua Adolfo de Oliveira Franco, 116 - 80310-640 – Curitiba-PR