A história da Fundação Almerinda Malaquias 

A Fundação Almerinda Malaquias foi criada no ano 1997 por Miguel Rocha da Silva e Jean-Daniel Vallotton.

Eles idealizaram a implantação de um centro de educação e formação profissional para a população do município de Novo Airão no estado do Amazonas, onde, através do reaproveitamento de madeiras descartadas da construção naval, fosse ensinado o ofício da marcenaria.

Almerinda e Malaquias, nativos do Amazonas, foram os pais de Miguel Rocha e de seus 15 irmãos. Juntos lutaram para transmitir aos filhos uma boa educação e o amor pela terra em que viveram.

Os quadrinhos acima estão nas portas de uma das salas da Fundação (imagem à direita), o primeiro espaço destinado às atividades com crianças e a primeira sala que foi utilizada na implantação do programa “Ateliê das Crianças”.

O nome da Instituição é uma homenagem aos pais de Miguel.

 

 

 

 

 

 

O projeto que completa 21 anos de desenvolvimento socioambiental em plena Floresta Amazônica

Por Kátia Bagnarelli, direto da Amazônia

 

Telma Lima, diretora executiva da Fundação Almerinda Malaquias. Ela divide o trabalho com o colega diretor administrativo Paulo Henrique, também amazonense

Novo Airão, um exemplo para o mundo

Foi em 1997 que a atitude de um suíço ao lado de um caboclo amazonense fez com que a vida de muitas pessoas se transformasse para melhor.

Eles se conheceram no Brasil, nos trâmites de alugar um barco de turismo para navegar até Parintins. Jean – Daniel, chegou no Amazonas em 1991 como turista.

Acompanhado de um amigo etnólogo foi apresentado a um singelo projeto de geração de renda baseado em marcenaria que se pautava no reaproveitamento dos resíduos de madeira usada na construção naval a 180 km de Manaus, no município de Novo Airão.

No comando daquele momento do projeto estava o senhor Miguel Rocha, empresário e guia de ecoturismo da região amazônica desde os anos 80.

Encantado com o que conheceu, Jean juntou uns amigos da região de Montreux – Villeneuve e criou a Associação Ailleurs Aussi com a finalidade de custear o necessário para o que viria a seguir.

Três anos depois Jean retornou da Suíça trazendo consigo dois contêineres carregados de maquinários eficientes para gerar maior produtividade na fabricação de itens feitos com a técnica da marchetaria.

Entretanto, naquela época a cidade de Novo Airão não tinha ainda acesso a televisão, geladeira e telefones. Até mesmo bicicletas eram raras por lá.

À medida que Jean e senhor Miguel iam se envolvendo com as demandas sociais da cidade através da Fundação que instituíram, o município os acompanhava, se desenvolvendo.

Vinte e um anos de trabalho depois, o eixo de geração de renda do projeto envolve o artesanato de madeira, os itens de reciclagem de papel e sabonetes e contempla ao todo quarenta famílias que garantem renda fixa para manter uma vida digna e saudável, em plena Floresta Amazônica.

A Fundação está localizada num terreno de 9.000 m2, com uma loja própria nas dependências das oficinas de artesanato.

A equipe do jornal Onews visitou Novo Airão e conheceu a Fundação e seus beneficiários.

Telma Lima, uma cabocla filha da Amazônia é pedagoga e apaixonada pelo desenvolvimento desse trabalho que tem mudado a vida da população e agitado o ecoturismo da região.

Ela foi a escolhida para gerir a Fundação em um dos momentos mais difíceis do país. É ela quem nos conta essa história, a seguir.

“De fato e de direito a Fundação Almerinda Malaquias passou a existir em 2000, num momento muito delicado do município com a conservação e preservação do que nós temos, que é a nossa fauna e a nossa flora amazônica.

As pessoas viviam aqui através da extração da natureza, tirando o seu sustento dela, entretanto sem o hábito da preservação.

Foi desta problemática que iniciou-se a Fundação, trabalhar com aquelas pessoas que estavam desacreditadas, sem renda e trazer uma alternativa de que é possível usar os recursos naturais com responsabilidade, tirando seu sustento mas também preservando.

Com o tempo, a Fundação foi crescendo e incorporando o campo da educação ambiental. Atendemos hoje 160 crianças, adolescentes e jovens do nosso município.

Para uma cidade como Novo Airão que tem em torno de 20 mil habitantes dizemos que é uma pequena esperança. Sonhamos em poder atender mais.

O projeto que lideramos das escolas ribeirinhas é um projeto muito bonito que leva dignidade para aquelas comunidades fazendo com que voltem a acreditar na vida ribeirinha.

Com pouca assistência e pouco investimento as famílias ribeirinhas começaram a migrar para a cidade e o município não conseguiu incorporar adequadamente essa população, aumentando a pobreza dos grandes centros.

Para que uma criança ou jovem entre em nossas oficinas os critérios básicos são que tenham a partir de sete anos e que estejam matriculadas na rede municipal de ensino.

Atingimos as famílias mais vulneráveis, mas oferecemos os cursos para todos.

Crianças de sete a quinze anos estão inseridas no Ateliê de Crianças e Adolescentes, onde temos temas variados sobre educação ambiental e valores humanos, é um programa de contra turno da escola.

De dezessete a vinte e um anos estão inseridos no Programa Pró Futuro, que atende jovens que finalizaram o ensino médio e precisam de orientação profissional.

No Brasil culturalmente preparamos os nossos jovens para passar no vestibular, deixando muitas vezes de prepará-los para a vida. Nosso município não tem universidade, quem é de família vulnerável fica sem opção, sem alternativas.

Nós mostramos os caminhos para que esses jovens permaneçam no município e continuem estudando, para que possam por exemplo ser empreendedores individuais se quiserem.

Esses jovens passam de segundas a quintas feiras, na parte da manhã, conosco. O resultado é muito positivo dentro da Instituição.”

Jean-Daniel e seu amigo Denis Parisod acampando no local do terreno em 1997, onde a FAM seria construída

Patronos, apoiadores e voluntários

Durante estas duas décadas, o trabalho foi acompanhado e financiado por uma dezena de empresas e instituições que acreditaram no sonho dos fundadores em ter uma comunidade melhor, um Amazonas melhor e um Brasil melhor, como dizem.

Contam com o apoio da Association Aillers Aussi, do Itaú Social, da Expedição Katerre, do Mirante do Gavião Amazon Lodge, da Prefeitura Municipal de Novo Airão, da Brazil Foundation, Anavilhanas Jungle Lodge, do Governo da Suíça, do Governo do Japão – programa Assistência a Projetos Comunitários, da Fédération Vaudoise de Coopération (Fedevaco), da Fondation Schmiedheini, do Rotary Club, do Lion´s Club, e da Sociedade Metal Assistance, além de uma corrente de solidariedade internacional, formada por amigos dos fundadores: Tania Ben-Zion de Manaus, Jean-Marc Pasche e esposa, Charles e Marcelle Valloton (in memoriam) da Suíça, David Lloyd da Nova Zelândia e Jerry Terman da Califórnia.

Os voluntários são educadores, psicólogos, artistas, entre outros que colaboraram com seus conhecimentos e energias. Inspirados por outras ONGs, instituições e cidadãos que lutam diariamente para transformar o Brasil em um lugar melhor, a Fundação Almerinda Malaquias segue seu sonho, atuando por muitas outras décadas que virão junto às demandas sociais da região de Novo Airão, no Amazonas.

Se tornaram referência em assistência social e orientação para desenvolvimento sustentável neste pedaço da gigante Amazônia.

Na liderança seguem os gestores Telma, Paulo e equipe promovendo oportunidades e transformações.

João e Simeão trabalhando na marcenaria construindo as peças exclusivas em marchetaria, durante a nossa estada

O Futuro

Em 2012 a FAM ampliou seu espaço e com o início da incorporação criou o Espaço EKOBÉ que são 32 hectares de floresta nativa localizada a 6 km do centro da cidade, onde foi implantado um centro de sensibilização e pesquisa sobre o meio ambiente.

O sonho se concretizou com um aporte de capital provindo do governo do Japão, que doou 85 mil dólares para construção das instalações iniciais, salas de aula, aquisição de computadores e uma Kombi para o transporte dos alunos.

Entre 2017 e 2019 as construções e trilhas propostas no centro Ekobé foram concluídas, novamente com o apoio da Associação Aillers Aussi.

A educação complementar proposta pela FAM sempre esteve baseada em uma metodologia de ensino continuada, direcionando estas crianças do ensino ambiental básico até a pré-formação profissional. 

Os matriculados após o ensino médio, que não tiveram acesso a Faculdades e ao ensino superior técnico, tem a oportunidade de frequentar, 4 vezes por semana, grupos de pesquisa em campo – seja na sala verde EKOBÉ ou nos parques e áreas verdes da região, um verdadeiro laboratório de ecoturismo.

Jovens caboclos de Novo Airão confeccionando suas peças na FAM

As dificuldades

Após a primeira década, mantendo o compromisso em demonstrar os resultados aos financiadores e com o crescimento dos projetos educacionais foi possível não apenas manter a estrutura de pé (os telhados de duas salas de aulas precisavam de reparos) mas também pagar salários dos educadores e prestadores de serviços – os recursos humanos tomavam 20% do orçamento da FAM.

Entretanto já naquela altura os financiadores suíços haviam diminuído o repasse em decorrência dos efeitos da crise econômica de 2008/09 – Lehman Brothers.

Foi quando Jean-Daniel pediu apoio às empresas de turismo ativas no município, que tem o Parque Nacional de Anavilhanas como base para desenvolvimento do ecoturismo.

Chegou então ao projeto Ruy Carlos Tone, engenheiro e administrador formado pela USP, filho mais velho da segunda geração nascida no Brasil de uma família japonesa que veio ao país nas embarcações que seguiram a rota do Kasato Maru, o navio que em 1908, transportou o primeiro grupo de imigrantes japoneses vinculados ao acordo estabelecido entre o Brasil e o Japão.

Ruy é um dos sócios da Expedição Katerre, promotora de expedições fluviais pelo Rio Negro.

Ele passou a se envolver com o projeto não só financiando as demandas emergenciais da Fundação, mas participando ativamente no conselho e gestão.

Em 2015, o empresário paulista assumiu a presidência do Conselho Curador da FAM e permanece até hoje em todas as etapas do desenvolvimento.

É possível se encontrar com ele pelos corredores das oficinas ou pela loja do projeto, sempre se comunicando com todos os que estão recém chegados e esse envolvimento rompe as fronteiras das impossibilidades gerando mais oportunidades para o trabalho na região.

Abaixo o empresário Ruy Tone em foto de Tuca Rainés/UNQUIET

 

“Nós tínhamos um desafio muito grande em 2018 que era trazer os pais dos alunos para a Fundação. Sempre havia uma desculpa, um compromisso.

Quando marcamos a primeira reunião em 2020 organizamos por grupos e conseguimos atingir 90% dos pais. Fizemos oito reuniões com oito turmas.

Tem pai que tem quatro ou cinco filhos conosco e vinha para as reuniões quatro ou cinco vezes.

Sonhamos em ter os pais assim tão presentes. É o que está acontecendo agora. É revigorante.

O meu momento mais desafiador foi quando assumi a gestão e a pandemia chegou e nós não fechamos a Fundação. Reuni todos e eles disseram que estavam comigo, a partir dali começamos a ligar para as famílias para saber como elas estavam e esse foi um momento mágico.

Começaram a falar esperando uma palavra de conforto, descobrimos que elas estavam passando por necessidades e dificuldades financeiras, muitas sem alimentação.

Ali percebi que estávamos no caminho certo, seríamos ouvintes e reuniríamos todas as nossas forças em busca de apoio.

Mobilizamos os jovens, os professores, envolvemos todo mundo.

De uma hora para outra nós vestimos a camisa e começamos a atuar dentro do município.

Não fechamos a nossa porta para a comunidade.

E então a pandemia aproximou as famílias, nos trouxe parceiros, pessoas que começaram a olhar para a Fundação de forma diferente.

Passamos a ser mais vistos e mais respeitados, um momento nosso de mostrar que estamos aqui apoiando a situação de forma pró ativa.

Ganhamos credibilidade neste período. Agradecemos a todos os parceiros, a todos os investidores, sem eles não teríamos conseguido.

Tivemos que nos reinventar”, finaliza Telma.

 

 

Para colaborar com a FAM acesse:

https://fundacaoalmerindamalaquias.org/

Avenida Ajuricaba, 128, Novo Airão AM Telefone:+55 92 3365-1000

 

A casa na árvore do Mirante do Gavião e o barco das expedições

Hotel Mirante do Gavião em Novo Airão, ao corpo do Rio Negro
A cidade de Novo Airão na Amazônia
As etiquetas e embalagens da loja de artesanatos exclusivos são sustentáveis.
O mel da região

As obras de arte produzidas pelo projeto

 

Corredor de espera das famílias para as entrevistas de vagas

 

Os artesãos amazonenses
A oficina
Senhora Sebastiana, a artesã das colheres de madeira
A obra prima