“A alma do ser humano tem uma necessidade inesgotável de que a substância contida nos contos de fada flua em suas veias da mesma maneira que o corpo precisa de substâncias nutritivas fluindo dentro de si.” Rudolf Steiner

 

A trajetória e os valores humanos que antecedem a formação dos líderes que movimentam os orgânicos no Brasil e no mundo

por Kátia Bagnarelli, exclusivo para Jornal Onews

Clauber Cobi Cruz, atual diretor executivo de uma das muitas Associações Brasileiras que tem por objetivo e propósito promover os orgânicos no Brasil e pelo mundo, nasceu em Paranavaí, no noroeste do estado do Paraná e logo foi morar em uma cidadezinha a cinquenta quilômetros dali chamada São João do Caiuá.

Suas primeiras memórias de infância nos levam a uma casinha muito simples, numa rua de terra, o que nunca lhe privou do fascínio por ônibus e caminhões.

Quando do início dessa entrevista, num dia de muito frio em Curitiba, ele usava um chapéu semelhante ao de quando ainda era um pequenino bebê do interior na foto acima.

Cobi durante a entrevista entre os pincéis e os orgânicos

 

O olhar de esperança e curiosidade continua o mesmo, a experiência é enorme e focada no alinhamento de propósito que ele mesmo, emocionado, nos narra a seguir.

“Um dia perguntei para o meu pai por quê não passava ônibus em frente de casa.

Ele me respondeu que era porque não tinha linha. E então, juntei um carretel de linha e fui estendendo pela rua. Isso já demonstra uma certa insatisfação e uma fantasia, ao mesmo tempo.

Claro que a fantasia é inerente para uma criança, mas cresci com essa atitude de sempre estender linhas. Tem uma imagem que ilustra bem isso, um pé no chão e uma mão voando, querendo agarrar as estrelas.

As atividades que eu tinha vontade de exercer sempre tiveram uma ligação muito forte com a arte. Comecei desenhando na areia e via minhas irmãs mais velhas desenhando e cantando.

Uma veia artística na música e no desenho, portanto, sempre me acompanharam. Eu gostava de desenhar carros. Também inventava rostos, caricaturas, estradas, paralelepípedos, castelos e coisas bem fantasiosas.

Houve uma mudança radical em meus 10 anos, quando fui para São Paulo, onde morei dos 10 aos 19. Foi em São Paulo que eu realmente criei asas e bigodes.

Brincava muito em casa, construía meus próprios brinquedos, entrava nos meus brinquedos. A matemática foi outra coisa que entrou com muita facilidade em minha vida, tinha facilidade para projetar, desenhar e montar, o que se refletiu em como eu aprendi música e como comecei a aplicar os desenhos em minha profissão.

Minha memória fotográfica em relação a música me ajudou muito ao ver os outros tocando. Eu achava bonito os desenhos que iam se formando nas construções dos acordes.

Eu reproduzia isso com a minha lógica. Depois comecei a estudar e melhorar o ouvido. Meu primeiro contato com a música foi visual.

E o interessante é que meu contato com o desenho tem muita sonoridade. Comecei a trabalhar como publicitário e precisava desenhar frases.

E as frases tinham que ser sonoras. Até hoje quando crio uma frase em desenho ela tem que ter uma sonoridade, um ritmo, uma pausa, ela tem o tempo dela.

Toda a ansiedade e insatisfação que eu trazia da infância tinham o lado positivo de se ter uma necessidade de criar sempre mais. De trazer algo que parece ser de outro mundo porque esse mundo não está preenchendo. E com isso veio uma capacidade inventiva que é legal, uma certa necessidade de fazer coisas.

Comecei a trabalhar muito cedo e com 19 anos já desenhava etiquetas de roupas. Com 20 já estava numa agência de propaganda, paralelamente tocando violão e estudando técnicas de músicas.

O mais engraçado é que o pessoal da música me dizia que se tivesse a profissão que eu tinha não seriam músicos.

E a turma de designer dizia, poxa se tocasse como você toca, eu seria músico…

Isso é engraçado hoje, mas com 20 anos ainda era um pouco adolescente e gerava uma confusão em mim.

Fui levando as duas coisas, com 21 anos fui para a Argentina, onde permaneci trabalhando por 4 meses. Depois trabalhei na maior agência de propaganda do Paraná, e foi uma escola muito boa.

De lá fui para o Chile onde 

trabalhei por 4 meses também numa agência de propaganda. Voltei e fui para Europa. Fiquei dois anos viajando e tocando. Comprava minhas partituras e ia ensaiar no metrô. Voltei para o Brasil com aquela noção de que somente voltaria para Europa como turista bem esclarecido.

Quando voltei percebi que havia algo que há dois anos eu não tocava… a parte do design.

O lugar que mais fiquei na Europa foi na Inglaterra, em Londres. Uma escola. Quando você olha um cartaz na rua você aprende com aquilo. Comecei a trabalhar com algo que pouco se falava aqui que era design gráfico.

Toda necessidade do cliente se refletia numa ligação para a agência dele, ninguém dizia que precisava conversar com o designer.

Voltei para o escritório e nos anos 90 fiz meu primeiro projeto com embalagem. Foi para a marca Jasmine.

Foi ali que comecei a sentir uma satisfação, fazendo algo que eu gosto, envolvendo alimentos saudáveis, uma necessidade de fazer um bom projeto para alguém.

Foi isso que me fez estar no caminho em que estou hoje, com os orgânicos. Sempre convivi com essas duas coisas e a música é muito forte para mim.

Principalmente a música brasileira. Sempre tive muita brasilidade, sempre gostei da música brasileira, de ouvir os sons do Brasil.

Desde os sons estilizados que Edu Lobo traz do Nordeste, de como Egberto Gismont pega essas coisas, de como Villa Lobos pega esse espírito, até algo mais jazzístico. Adoro o historiador inglês Eric John Ernest Hobsbawm, que traz uma história muito bonita que é a história social do jazz. E a música clássica que eu sempre tive vontade de entender, interpretar.

Hoje gosto de muita coisa, tem algumas que ainda são muito estranhas para mim, mas no geral eu gosto de ouvir coisas muito diferentes, que incomodam algumas pessoas. Tenho a capacidade de ficar parado ouvindo a textura, a linha melódica…

Tanto a música quanto o design tem uma coisa que é fundamental: tensão e repouso.

Quando vamos nos comunicar e temos essa noção, seja intuitiva, seja porque você amadureceu nisso, ela ajuda a chegar no coração das pessoas.

Quando você tensiona algo, você provoca e resolve. Quando me casei comecei a conviver com a antroposofia porque minha esposa sempre me trouxe isso.

Não tive que fazer tanto esforço para ir atrás, meu esforço foi no começo, quando participei dos grupos de estudos para entender, pois se trata de uma leitura muito tensa.

Uma coisa da antroposofia como legado que é muito interessante, que senti quando aprendi com Rudolf Steiner e também li Guimarães Rosa em “Grandes Sertão: Veredas”, é que as cinquenta primeira páginas foram muito difíceis, encantadoras as linguagens, mas você precisa entrar naquilo para começar a fluir.

No caso de Rudolf Steiner, ele tem maneiras de falar as coisas de um jeito diferente. Começa a fazer sentido para você depois de ler bastante. Temos uma visão de tabela, impregnada. Você começa a dar significados conforme o contexto, o momento.

Vou dar um exemplo: agroecologia orgânica, como é que estas duas palavras se confundem ou são diferentes? Tem autores que defendem que o orgânico é um guarda-chuva da agroecologia, tem gente que acha o contrário.

Eu acho que dependendo do significado daquilo ali num momento uma pode ser o guarda-chuva da outra, podem até estar juntas, podem estar separadas, como proposição, e dentro dos diversos significados do orgânico, o mais interessante do que ser lei ou significado de produto que foi certificado, é o pensamento orgânico, essa cosmovisão do mundo.

Acho que se aproxima, aí sim, da agroecologia e das diversas atividades com princípios parecidos.

Permacultura, sintropia, biodinâmica e agricultura natural. Começar a enxergar tudo isso como ciência inclusiva, e não simplesmente um método sem olhar como um todo.

Quando falo de ciência inclusiva, estou me referindo a uma ciência que inclui os saberes dos povos tradicionais, dos indígenas, dos quilombolas, nesse sentido acho que a agroecologia é isso.

Não consigo imaginar um mundo próspero sem o pensamento agroecológico.

 

Cobi durante a feira Bio Brazil em 2019

Os pais que formaram o líder

Meu pai, Gentil Cruz, era um alfaiate. Um lado artesão que eu carrego como influência em meu design atual que é muito artesanal, e uma coisa meio solitária às vezes.

Meu pai ganhou dinheiro naquela época porque ele sabia cortar um terno. Passando essa fase ele foi trabalhar gerenciando armazéns de café que havia na cidadezinha onde morávamos.

Desde pequeno eu convivi com o café. Atrás de mim havia uma plantação de café e ao meu lado aquelas sacas com aquele cheiro, eu brincava nestas sacas quando era menino.

Época em que nós, crianças, éramos mais livres e não enxergávamos com tanto perigo as coisas à nossa volta. Minha mãe, dona Odair, queria ver os filhos estudando em lugares que pudessem nos dar uma formação melhor. Ela comprou essa briga e saiu do

interior para Curitiba, antes de nos mudarmos para São Paulo. Ela fez um curso para ser obstetra e começou a trabalhar como parteira.

Meu pai voltou a ser alfaiate e conseguiu viver a vida dele. Minha mãe era guerreira, fazia muitos plantões, conseguiu dar o mínimo de base para os filhos estudarem e manteve uma família.

Temos uma foto dela muito interessante, ela está com vários recém nascidos, e ali estava o milésimo recém nascido que ela atendeu. Era uma foto comemorativa.

Quando eu tinha 13 anos eles se separaram, fiquei bem triste. Toquei a minha vida, muito triste.

Meu pai sempre foi uma pessoa muito reservada. Minha mãe era muito séria. Entretanto, sempre tive muita liberdade para brincar e não tinha muito limites.

Talvez isso não tenha sido muito bom… somos sete irmãos, eu sou um dos mais jovens.

Eu olho minha vida e acho que sempre tive sorte. De uma maneira ou outra fui encontrando os caminhos, as coisas foram aparecendo, aparentemente tive que decidir muito, mas fui guiado pelo que gostava.

Sempre fui autodidata e sempre fiz as coisas à minha maneira, até hoje tem sido assim.

Ainda quanto ao lado artesanal a que me refiro, você imagina que eu trabalhava numa agência de propaganda e quando tínhamos uma ideia era aquela coisa enrijecedora, uma ideia que tenha uma diretriz muito estreita, uma certa rigidez toma você.

O que você precisa após isso é relaxar, preparar um layout durava dois ou três dias, isso era muito terapêutico, um prêmio após aquele momento sofredor da ideia.

Tinha textura, os papéis, tinha o cheiro das tintas, tinha o som da tesoura cortando o papel e eu preservava o meu lado artesanal no momento de fazer as coisas.

Muita gente acredita que fazemos tudo no computador e não, não fazemos tudo no computador.

Ele é uma ótima ferramenta substitutiva, por um lado ele te estressa porque permite fazer tudo mais rápido e sem muitas pausas.

O alimento em casa na infância

Não me lembro de nada excepcional sobre o alimento. O que me lembro quando pequeno é que tínhamos uma galinha, uma vaquinha e até um porco.

Tínhamos uma horta, essas qualidades de vida.

Minha mãe foi criada no sítio, era uma pessoa muito forte com uma saúde tremenda. Ela se alimentava de

tudo e naquela época não se usava veneno. Tudo se aproveitava, se matasse um porco aproveitava-se o porco todo. Tanto é que em um dos livros que estudei sobre embalagem tem uma parte interessante que o autor revela quando surgiram as latas de lixo, que foi quando surgiram as embalagens.

Até então não havia muita necessidade de latas de lixo. Nasci junto com a revolução verde, nos anos 60, bem naquela mudança para a agricultura mecanizada, extensiva, insumos sintéticos, êxodo rural, a mudança da paisagem.

E obviamente que refletiu na família mas não se questionava muito sobre isso, se o alimento tinha ou não agrotóxicos. Adoramos a comida da nossa mãe.

Tínhamos já em São Paulo as feiras de rua, não víamos pão integral por exemplo, o que tinha era pão de farinha branca, a famosa bengala.

O café tem uma transformação gráfica maravilhosa, começa verde, vai se avermelhando, se amarelando e vira aquele grão esverdeado de novo até se transformar num marrom acetinado, numa textura difícil de encontrar num outro lugar.”

O movimento orgânico

Criamos a princípio a Organics Brasil. Ali fui percebendo minha vocação em querer fazer parte de algo bacana.

Já tinha trabalhado com alguns projetos orgânicos, com o IBD, já tinha criado algumas marcas e rótulos para os orgânicos, mas foi ali que comecei a ver um projeto de comunicação para os orgânicos, para uma comunidade maior.

Um movimento para vender a ideia dos orgânicos.

Participava das feiras e acompanhava a montagem de estandes, gostava de participar para acompanhar como eram as linguagens de cada país…

Eu gostava de trazer essa experiência internacional para o Brasil e acredito que foi o trabalho em que percebi realmente que eu tinha que dar conta, que tinha que ter um papel

de liderança, percebendo realmente a importância do meu trabalho, onde poderia aplicar minhas virtudes e talento, percebi que estava no lugar ideal e que isso poderia fazer parte de um projeto do bem.

Há seis anos, com a fundação da Organis, a nossa Associação do movimento dos Orgânicos no Brasil, percebi claramente o meu papel. A Organis nasceu da necessidade do Brasil crescer lá fora, ou seja, para que o Brasil cresça lá fora, ele precisa crescer aqui dentro.

Precisamos promover o orgânico no Brasil aproveitando essa expertise de doze anos trabalhando em parceria com a Apex.

Logo que o nosso trabalho começou, Ming Liu, que ainda estava na direção executiva, se mudou para os Estados Unidos, mas não largou a Organis.

Me convidou para assumir a diretoria. Pedi a ele um tempo para pensar porque sabia que teria que fazer coisas que não estava acostumado a fazer.

Desde estar nos bastidores desenvolvendo conceitos, prazos, designs, aquelas coisas que as pessoas elogiam quando acertamos por ser mais visível (e artista tem um ego, precisa dessas aprovações e por isso precisa se superar), até a oportunidade de aprender a fazer coisas que não são da minha área, que aparentemente eu não gosto, e ainda conversar com as pessoas, ter contato com a cadeia produtiva.

Isso me fez estudar mais o que é o orgânico, o que é a agroecologia. Mergulhar em tudo e criar muitas ações para impulsionar o orgânico.

Os desafios da missão

O primeiro desafio foi ter credibilidade, porque as pessoas me conheciam como designer e não como diretor de promoção

dos orgânicos. Para quem não está acostumado a ficar em frente a uma câmera, é muito constrangedor. A primeira entrevista que dei fiquei morrendo de vergonha.

Sempre fui mais de desenhar do que de escrever.

Tive que aprender diferentes formas de me dirigir às pessoas, dependendo da entidade ou pessoa de um jeito mais formal, com outros mais descontraído. Aprender a dar entrevista e aprender a lidar com as pessoas.

No começo tive um pouco de choque, Ming tinha uma maneira de lidar, eu outra. Depois fui abrindo mão de uma linha de pensamento para construir junto.

Me apresentar para os associados, lidar com a imprensa, lidar com outras associações e conselheiros que tínhamos. Entretanto havia uma coisa que me incomodava muito: achar o propósito da Organis.

O propósito

Fizemos alguns exercícios, reconhecendo nossas fortalezas e fraquezas, oportunidades e ameaças, até que chegamos no propósito que é promover. Aprendi, com o tempo, também como explicarmos esse propósito: por meio de uma comunicação que relaciona, que desperta engajamento, todo o trabalho que construímos para chegar na simplicidade de propósito exige uma grandeza e tempo.

Criamos um discernimento daquilo que nós não somos. O que é difícil também.

A questão é saber trabalhar junto. Trabalhando a partir desse recorte ficou mais fácil inclusive com a perspectiva de entrar em outras áreas a partir do momento em que temos uma estrutura.

Para isso precisamos cada vez mais de produtores orgânicos, consumidores, associados e ações para que nos monetizemos e tenhamos mais braços e mais pernas.

As frustrações, no começo, são mais acentuadas porque você quer fazer muita coisa. Depois caímos na realidade e vamos sabendo lidar com aquilo que é possível.

Me vejo, não como super herói mas me pegando em alguns aspectos heróicos porque abrir mão de fazer outras atividades mais rentáveis para fazer o que gosta, distribuir esse bem estar é um lado heróico.

Claro que ninguém é 100% bonzinho, ainda bem, senão já estaríamos prontos. Tenho um humor que me ajuda muito, que quebra um pouco uma certa sisudez de alguns encontros.

Isso ajuda também a conceder alguns conceitos de comunicação, trazer coisas densas de uma forma até um pouco lúdica de contar.

Procure ser um pouco mais curioso em saber de onde vem o alimento que você está comendo, qual é a história desse alimento, o que ele beneficiou, qual é o impacto, e qual é o futuro dele.

Isso pode fazer muita diferença em sua vida pessoal e pode trazer um bem estar para você comprando algo que beneficia pessoas que fazem um trabalho maravilhoso e você não sabia.”

A entrevista se encerra com uma citação de Guimarães Rosa no livro Grandes sertões de veredas:

“Passarinho que se debruça – o vôo está pronto!”

E o menino que cresceu e escolheu hoje liderar, Cobi Cruz, se despede com a frase que nos inspira a levantar voo onde quer que estejamos.

” O orgânico é um passarinho debruçado. “

Em Berlim no ano de 1986
Durante a BioFach em 2005
Durer Haus, Nuremberg na Alemanha