Cantora, mãe e uma artesã brilhante.

O que chamamos de lixo, ela lapida até virar preciosidade. Ela é MAMA ECOS, a força que emana do sorriso

por Kátia Bagnarelli, exclusivo para Jornal Onews

 

A mãe de Damianna Alves costumava dizer que não podemos perder a alegria, que precisamos estar sempre sorrindo pois quanto mais sorrimos mais coisas boas vem para todos nós. Ela incorporou os ensinamentos e se tornou uma mulher dona de seu próprio destino, sorridente por natureza.

A nossa equipe conversou com ela sobre sua história e arte numa entrevista repleta de musicalidade. A seguir Mama Ecos, em primeira pessoa, exclusivo para o Jornal Onews.

“A ecologia e as questões do meio ambiente sempre fizeram parte da minha vida. Meu falecido pai trabalhava na Sabesp e cuidava da área ambiental, as EPIs. O apelido do meu pai era marimbondo. Ele era super engajado. Sempre levou essa consciência para casa.

E eu estava ali, absorvendo tudo. Nossa casa sempre foi uma casa musical também. Desde muito cedo me interessei por artesanato, mas acabei virando roqueira, tocando violão por aí. Foi trabalhando com música que conheci o pai dos meus filhos.

Me casei muito cedo, aos 19 anos. Logo em seguida tive o primeiro filho, o Pedro. Decidi naquele momento, me dedicar a família e o artesanato voltou para minha vida. Gostava muito de brincos e comecei confeccionando meus próprios.

Quando engravidei do meu segundo filho, o artesanato veio ainda mais forte para minha vida. Morava perto de uma árvore de jacarandá.

Pegava cascas de jacarandá, que são lindas e lapidava as folhas confeccionando as minhas biojóias. Buscava sementes em todos os cantos, segurando um bebê no colo e outro na barriga. Recolhia as sementes para fazer os testes.

Fazia as secagens sem instrução alguma. Logo que meu segundo filho Luiz nasceu, comecei a sair para vender as artes que produzia.

Comecei vendendo nas feiras internas da Sabesp apoiada pelo meu falecido pai que me dizia que os funcionários da empresa tinham consciência ecológica e por isso poderiam gostar da minha arte.

Eu arrasava nas vendas. Meus colares eram únicos, feitos com muito amor.

O que mais vendia era feito de semente de Pau Brasil. Moro hoje em Poa, e aqui temos muito Pau Brasil. Também esculpia com sementes de girassol. Comecei a vender então na porta do SPFW.

Uma vez um estilista acompanhando Ana Hickmann, salvou meu dia, levaram todas as biojóias que eu tinha de Pau Brasil. Voltei para casa toda endinheirada, feliz da vida, uma coisa linda. 

A natureza sempre me acolheu. Depois disso vieram mais filhos.

Maria Luiza, a primeira menina chegou e cada filho que nascia aumentava minha vontade e meu dom em fazer arte. Maria Luiza hoje é marketing da nossa empresa.

Tudo estava aflorando, comecei a trabalhar com sementes e pedras naturais ao mesmo tempo. Ainda não tínhamos nome de marca, todos se referiam às biojóias como da Dami Alves.

Quando Helena, a quarta bebê chegou, foi muito bom apesar do casamento que já estava desgastado. Me divorciei na sequência e fiquei com os quatro, sozinha, morrendo de medo.

Um dia estava apavorada porque havia deixado um emprego de dois anos no jornal Estadão, uma empresa sensacional com um respeito incrível por seus colaboradores. 

Trabalhava no call center da redação. Ganhava razoavelmente bem, fazia minhas biojóias, mas decidi viver apenas de minha arte, cantar e produzir mais artesanato. Como já estava divorciada, conversei com as crianças e expliquei que não estava feliz.

Eles disseram que cresceriam um dia e era importante que eu estivesse feliz. Meu filho mais velho tinha 14 anos. Deixei o trabalho e um tempo depois, obviamente, as contas apertaram e eu fiquei aflita. Uma certa noite acordei no meio da madrugada e fui até a cozinha, peguei uma garrafa vazia de refrigerante que tinha por lá, comecei a abrir a garrafa PET. Tive um insight.

Fiz vários pares redondos, quadrados e em triângulos. Sem pensar comecei a me inspirar. Cortei a barra de uma saia de tecido africano e cobri os moldes de PET.

Ali fiz doze pares de brincos até às cinco e meia da manhã. Era uma época em que era muito difícil comprar matéria prima para fazer novos brincos.

Acredito em meu anjo da guarda e sinto que ele me disse naquele dia: aqui está querida, tudo o que você gosta, a natureza e sua arte, aproveite.

Ali nasceu a Mama Ecos. Jóias feitas a partir de materiais orgânicos encontrados na natureza.

Comecei a estudar o plástico, presente nas praias e oceanos. Para onde vou levo minhas sacolinhas para recolher todo material considerado lixo mas que depois do processo vira jóia.

Aquilo que não posso aproveitar vai para reciclagem, que vem fazendo um trabalho que não é fácil, mas é muito importante.

Fui estudar porque precisava ter uma base sólida e referências do que estava fazendo.

Descobri que o planeta está doente e muito é pelo plástico espalhado pelo mundo.

Nós Mama Ecos temos hoje o artesanato, a linha de reaproveitamento e a ecológica que é o nosso carro chefe. Temos minhas amigas crocheteiras que nos destinam as sobras têxteis de suas confecções. O reaproveitamento de tecidos é importante para que não vá parar também no oceano.

Reaproveito as sobras e construo colares de inverno e embalagens destes tecidos entre outras peças.

Meu trabalho é um grande desafio. Passei por muitos testes. A primeira coleção parecia fácil, mas depois de pronta não foi comercializada. Fui descobrindo que a cola que eu utilizava não era boa, descobri que deveria fazer um furo mais preciso para determinado lado, foi um processo de pelo menos dois anos até ter uma intimidade com a PET.

Fiz cursos de artesanato específicos. Fiz curso sobre colas, pois queria trazer algo mais natural possível, não queria nada nocivo. Sempre quis peças totalmente ecológicas e queria que fossem bonitas também. Fui atrás de barro, fui atrás da seringueira e nessa ida e vinda, fui para as tribos indígenas.

Mama Ecos foi para mim um grande presente da natureza, porque além de estar cuidando de mim como parte dessa natureza querendo ser uma colaboradora do Universo, também construiu para mim amizades indígenas que me trouxeram muito conhecimento.

Minha cola é natural e fabricada pelos Guaranis no Pico do Jaraguá. As curvas da PET me encantam e me trazem a versatilidade. Em minha oficina reciclo o restante dos materiais como papel, por exemplo.

Durante a pandemia passei a estudar cristais de forma mais técnica. Terminei meu

curso de chakras e o utilizo também em minhas jóias.

O meu processo é tão intrínseco que nem consigo explicar. Há muito prazer e alegria em fazer cada peça. Temos muitos choros de alegria por aqui.

Me procuram por, além de ser ecológica, também trabalhar pedras e sementes juntas. Isso é muito novo somado à necessidade energética de cada pessoa que chega aqui.

Tenho, normalmente, uma conversa em consulta com cada cliente antes de confeccionar uma biojóia.

Sou grata por esta confiança, pois este é um momento de muita intuição e inspiração.

Minhas clientes já formaram uma rede. Um fator energético muito importante para Mama Ecos.

Entregamos nossas biojóias no atacado para Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Londres e Paris.

Nunca pensei que conseguiria essa dimensão apesar de ter sido um sonho muito desejado. Chegou no coração das pessoas. Nossa meta na Mama Ecos é acalentar, abraçar, cuidar, amar e mostrar que a Mãe Natureza é isso aí. Uma peça que traga uma questão ecológica não pode ser fria. Tem que ser uma peça que acalenta, que traga esperança.

A força que move Damianna e a marca que construiu

Essa força é a força feminina que todas nós temos. Todas nós temos. Depende apenas do limite em que você chega. Existem algumas que precisam chegar até o limite para despertar.

Estamos tão perdidos em tantos pensamentos e tarefas no dia a dia que nós não silenciamos. Quando percebi que estava naquele desespero passado, abri o campo e a intuição veio.

Tudo o que aconteceu também foi um encontro comigo mesma. E esse autoconhecimento foi o que me permitiu ver muito, me mostrando tanto, que esse poder despertado me levou à Paris e à Londres quando jamais as circunstâncias simples da vida que eu tinha me permitiriam.

Eu digo sempre, esse negócio de artesanato dá certo sim. Falo para as mulheres que o que dá certo é o que nós gostamos independente das estatísticas.

Quando deixei um trabalho seguro para viver de minha arte, com quatro filhos, ouvi que passaria fome e que teria que pedir o que comer para conhecidos.

Não foi e não é fácil ser empreendedora de produtos ecológicos, num momento em que as pessoas ainda não estão habituadas a comprar.

Tenho feito algumas biojóias de embalagens de shampoo, sabonete líquido, sabão em pó, pois são muito coloridas e não podem ser descartadas. Ainda estou no processo técnico de desenvolvimento, mas tem me gerado um degradê de cores lindo.

Não existe lixo, tudo é jogado dentro do planeta.

Ainda ouço de algumas pessoas que adoraram o brinco mas me perguntam se posso tirar a parte de plástico. Eu respondo que não, claro.

Além das biojóias com a marca Mama Ecos e da minha música, também sou arte educadora e trabalho com crianças carentes. Tenho oficinas de instrumentação musical com garrafa PET. As crianças levam o que tem em casa e adoram.

Minha infância foi muito boa. Meus pais escondiam os ovos da páscoa, o natal era cheio de pegadinhas de papai noel. Algumas vezes estávamos distantes, o que me fez acreditar que eu era carente, algo que construí em minha cabeça. Minha mãe era manicure, estava sempre trabalhando e quando voltava, caía no samba com meu pai ali mesmo em casa.

Eles eram do samba, tinham um grupo de samba. Eu e meus irmãos ainda crianças também tivemos um grupo de samba. E por causa disso tivemos poucos momentos só entre família, sempre tinha muita gente em nossa casa passando temporadas vindos da Bahia, do Sul.

Somos cinco irmãos. Três de nós somos músicos, dois de meus irmãos pagodeiros famosos. Eu acabei ficando no jazz, no blues, no rock e no forró, que eu adoro.

Tive momentos difíceis também. Da minha adolescência até o primeiro filho foi um período conturbado. De uma revolta boba, compreendida depois de muitas terapias. Na adolescência meu sonho e de meu pai era que eu estudasse biologia. No entanto acabei me perdendo e isso não se concretizou, mas tudo foi importante para que chegasse até aqui hoje. Não me arrependo de nada. Teria estudado mais, para também proporcionar uma vida melhor às crianças.

Legado

Por um bom tempo passei por processos depressivos sem saber que assim eram. Achava que eu era daquele jeito. Houve um tempo em que eu não sorria tanto.

Nesse processo me perguntava o por quê estava aqui nessa vida. Quando fiz minha viagem para o exterior e vi a vida lá fora, como as pessoas agiam, descobri meu valor. Ali foi o começo do processo para meu autoconhecimento. Sempre gostei de Deus, quando tinha oito anos de idade, trago aqui uma memória afetiva, me lembro que dizia: Deus, vou passar tudo o que tenho que passar com resignação.

Hoje penso sobre de onde tirava aquilo, com apenas oito anos. Eu buscava o autoconhecimento, mas sempre me desviava desse caminho porque se autoconhecer é doloroso.

Nos deparar com nossas sombras, medos, inveja, tudo o que somos de verdade, não é fácil. No exterior vi a oportunidade que Deus estava me entregando como se dissesse:

Vai, minha filha, está tudo aqui, acorde! Veja o seu valor!!

Eu ajoelhava chorando naquela época dizendo à Deus:

Sim, estou aqui!! Sou algo.

Minha arte, minha biojóia tem valor.

E lá no exterior, as pessoas deram muito valor à minha arte. Eles são mais evoluídos, reconhecem esse tipo de arte com PET.

Morando lá iniciei mais estudos e fiz terapia, voltei ao Brasil totalmente modificada.

Só compreendi que eu poderia mudar a vida das pessoas para o bem e que poderia abrilhantar todos os que estão ao meu redor através da minha biojóia, quando eu me descobri, quando descobri quem eu sou e o meu próprio valor.

E só descobrimos isso estudando, descobrimos isso quando entendemos que precisamos perdoar, compreender, ressignificar, se respeitar.

Quando entendi isso descobri que sou uma luz brilhando no mundo e que todos somos. Descobri que quero ajudar da forma que for possível, a todas as pessoas para descobrirem que são luz. Voltei em 2019 para o Brasil e a primeira coisa que fiz foi ir até a beira do mar.

Fiquei lá meditando naquelas areias e praias incríveis. Ali firmei tudo o que vim galgando na Europa. Defini ali o que seria minha empresa e decidi que estaria aberta a negociações, novidades e parcerias.

Voltei com energia para tudo. Logo depois chegou a pandemia de covid19 e ela me trouxe com o isolamento alguma paz para estudar sobre onde eu queria chegar.

Em nossa casa, com a graça de Deus ninguém adoeceu, mas perdi muitos amigos. Consegui fazer uma imersão do que precisava.

Tenho uma banda de mulheres, tocamos black music, a pandemia também nos deixou sem shows. O nome da banda é Mama Soul.

O olhar sobre o presente

Estamos vivendo um desafio, mas precisamos aprender a nos responsabilizar por tudo o que está acontecendo. A responsabilidade do que está acontecendo é de todos nós.

Não cabe mais a tristeza, o ódio, o momento é de tentar fazer diferente.

Sempre houve pouco amor, este é um momento de sentirmos mais amor.

Vivo em minha bolha de felicidade, em minha casa nem parece que há tanto coisa ruim lá fora, não assistimos jornais que trazem más notícias, gostamos de ler e assistir o Onews, por exemplo, que fala sobre uma comida saudável, sobre sementes, sobre a natureza. Mudei a nossa alimentação em casa. Tem tudo a ver com minha arte. Minha alimentação hoje me deixa mais leve para poder produzir melhor. É um processo que não é tão fácil.

Mas se estamos comendo coisas que não são legais e assistindo notícias ruins, você se enche de coisas ruins e não será possível esculpir uma peça bonita ou com bom valor energético.

Tento ter em casa o máximo possível de orgânicos e grãos. Aqui em casa todos cozinham de forma saudável. E se alguém está mal humorado não pode ir para cozinha fazer nossa comida ou para o ateliê fazer arte.

Tudo aqui é feito realmente com muito amor e todo esse amor é o que volta para mim. Tudo o que me faz bem tento propagar. O mundo está doente, todos nós estamos.

Cabe a nós, que temos um pouco de discernimento sobre o que está acontecendo, levar saúde e alegria para as pessoas. Esse é o intuito.

Futuro

Sobre o futuro está tudo em minha mente. Daqui a dez anos quero uma loja de Mama Ecos em cada lugar do mundo. Quero cooperativas retirando plástico dos oceanos e gerando emprego com esses resíduos, e sei que vou conseguir. Um processo que tire as pessoas da pobreza e as possibilitem ganhar bem fazendo joias com todos os tipos de pedras e sementes, acessíveis a todas as classes sociais, contanto que limpemos esse mundo desse plástico, modificando todas as pessoas como uma grande família. Esse é o mundo que eu quero daqui a dez anos.

Se pudesse entregar um conselho

Eu diria para que todos pudessem realmente ficar quietinhos dentro de casa, olhando para si de alguma forma, porque estamos precisando nos olhar.

Estamos vivendo apenas o externo, com muito medo de olhar para dentro e encontrar frustrações e tudo o mais que você não gosta no outro.

Vamos para dentro de casa respirar um pouco, relaxar, chorar bastante para nos limparmos. O mundo vai ficar melhor quando todos estiverem mais centrados dentro de si, menos nas redes sociais compartilhando apenas o que é material.

O mundo está mostrando que é o momento de nos olharmos.

Precisamos nos permitir.”

A entrevista termina com Damianna Alves cantando ao violão “Chão de giz” de Zé Ramalho na versão interpretada por Elba Ramalho.

Eu desço dessa solidão

Espalho coisas sobre um chão de giz

Há meros devaneios tolos a me torturar

Fotografias recortadas

Em jornais de folhas amiúde

Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

Disparo balas de canhão

É inútil, pois existe um grão-vizir

Há tantas violetas velhas sem um colibri

Queria usar, quem sabe

Uma camisa de força ou de Vênus

Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro

Nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom

Agora pego um caminhão

Na lona vou a nocaute outra vez

Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar

Meus vinte anos de girl, that’s over, baby

Freud explica

Não vou me sujar fumando apenas um cigarro

Nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom

Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval

E isso explica porque o sexo é assunto popular

No mais, estou indo embora

No mais, estou indo embora

A artista em uma de suas passagens por Londres

 

Damianna com amigos
Damianna posando com obra de arte