O sentido do cuidado, por Conceição Giori

O sentido do cuidado

Nossa vida é uma travessia.

Nosso caminho o deserto do infinito de possibilidades de sermos unos, juntando as diversas facetas de nossa personalidade e desenvolvendo o nosso potencial de sermos sentido e significado.

Cada vida é um mito e cada mito tem o poder de nos orientar em nossa jornada, de nos auxiliar a encontrar a porta que devemos atravessar para atingirmos a realização plena. Se nos entendermos cada qual como um farol que anuncia terra firme e segura, mas que também aponta os obstáculos e perigos para as embarcações, podemos nos tornar firmes e seguros mesmo em alto mar e cada um de nós se tornará tanto a segurança de todos quanto o aviso correto para que nenhuma das embarcações se choque nos rochedos do caminho.

Essa condição peculiar só se pode alcançar se nos dispusermos a entender a importância de assumirmos a função de cuidado e assim emprestarmos sentido para além de nós mesmos às nossas vidas. Esse sentido só pode ser percebido e entendido quando assumirmos que cada um de nós é o próprio sentido e que para que ele seja notado, precisamos colocá-lo diante de nós, precisamos de um espelho limpo para nos mirar e encontrar o sentido que carregamos por dentro.

Não existe espelho mais perfeito que outro ser humano diante de nós, justamente por isso, acredito, Teilhard de Chardin, filósofo cristão, afirmava que “a alma humana é feita para não estar sozinha”.

Se associarmos isso à crença de Joseph Campbell, maior mitologista de nossos tempos, de que “A vida não tem sentido.

Cada um de nós tem sentido e nós o atribuímos à vida”, faltará muito pouco para que a humanidade reconheça que a opção pelo autocuidado e pelo cuidado recíproco é um imperativo existencial que cada um de nós carrega de forma latente em nossa alma e que podemos desenvolver como conhecimento inato, porque, ainda segundo Chardin, “o homem não é apenas um ser que sabe, mas é também um ser que sabe que sabe”.

Todos os eventos chocantes do passado distante e próximo são gritos de nossa própria natureza coletiva nos avisando de que o caminho tomado pela humanidade parecia distanciar-se do caminho do coração, aquele caminho em que cada ato é consciente e presente, incluindo tudo e todos no computo de suas consequências em curto, médio e longo prazo. Inexiste ato isolado, mas existe ato isolado da consciência de cuidado para si mesmo e para o outro.

Esse isolamento de nossas consciências é um isolamento de nós mesmos, de nosso próprio corpo, de nossa habilidade de percebermos em nós os avisos que a natureza coletiva nos envia através de nossa individualidade encarnada.

Para que possamos ouvi-los é preciso que antes estejamos confortáveis e presentes em nossa primeira casa, nosso corpo físico.

Se sustentarmos nossa presença em nós, seremos capazes de sustentar a presença do outro também em nós, mas não como uma ameaça e sim como uma comunhão entre individualidades que foram criadas para viver o coletivo compassivamente.

Se pensarmos o Natal como espiritualidade, para além da religião, podemos tomar esse rito cristão como exemplo mais que perfeito para o que representa ser sentido em si mesmo e e atribuir esse sentido para o mundo, aceitando o amor compassivo como única possibilidade consistente de plenitude.

O Cristo menino nos chama a termos coragem de ouvir a dor do mundo, que é a dor de nossos irmãos, sob quaisquer formas que eles se apresentem nessa nossa casa coletiva – o planeta Terra -, e não tapar os ouvidos, mas olharmos no espelho de nós mesmos, que é o outro, e assim decidirmos que o cuidado tem profundo sentido em nossa permanência como seres humanos neste planeta.

Nos ajudará muito a aceitar o Cristo, cujo nascimento histórico se comemora na noite que antecede o dia 25 de Dezembro, como parte de nós que temos que cuidar se plasmarmos em nós que “Cristo tem um corpo cósmico que se estende por todo o universo”.

A busca por experiências que nos faça sentir que estamos vivos é a busca real do homem como ser em evolução. O único que se precisa é compreender que essas experiências só conseguem ser validadas se estivermos presentes em nosso corpo, para que assim possamos sentir, através do corpo, quando o caminho que escolhemos é ou não o que o nosso coração, que participa do corpo cósmico de Cristo, deseja.

A partir do coração vivemos a compaixão, a partir da compaixão, sofremos com e nos alegramos com e nos apaixonamos pela vida que pulsa em todas as formas.

Desenvolvendo o cuidado como chamado natural do ser humano que sabe e tem consciência que sabe, podemos conduzir nossa realidade e nossa atuação no mundo pautando nossas ações, direcionando nosso trabalho, sempre com a consciência de que nossos atos podem cuidar de alguém, de uma parcela do coletivo, de uma porção da terra enquanto nossa mãe, dos vegetais enquanto nossa nutrição, dos animais enquanto doadores de vida e de regeneração, dos minerais enquanto componentes de nós mesmos.

Podemos cuidar de quem somos se não negarmos nossa coletividade.

Aprendendo a cuidar, aprendemos com o passado e podemos descobrir que “o futuro é mais bonito do que todos os passados” (Teillard de Chardin), apenas aceitando que “o mistério da existência da sua cadeira é idêntico ao mistério da existência do próprio universo” e então qualquer coisa “pau, pedra, ser humano, animal, pode ser colocado no centro de um círculo de mistério” e “servir perfeitamente como fonte de meditação” (Joseph Campbell).

joseph Campbell e Teillard de Chardin