Extensionistas Rurais. Créditos da imagem: Dayla Ciancio

 

As Casas de Agricultura e o trabalho dos extensionistas rurais

Por Antônio Marchiori, presidente da APAER – Associação Paulista de Extensão Rural

O serviço de extensão rural é fundamental para o apoio da agricultura familiar e para a agricultura orgânica. Esse serviço vai muito além da orientação sobre as melhores práticas para a produção orgânica, atua também na escolha das melhores estratégias para escoar os produtos e orienta para o planejamento integral das unidades de produção agropecuária que terão impactos significativos na conservação dos recursos naturais e na mitigação das mudanças climáticas.

A transição agroecológica para a agricultura orgânica deve ser baseada na melhoria dos processos da produção ao consumo. É diferente da agricultura convencional, que é principalmente baseada no uso de insumos externos.

Para melhor entender como melhorar os diversos processos, o diálogo e a convivência entre os extensionistas, produtores e consumidores é fundamental. A orientação para a introdução de produtos orgânicos na alimentação escolar e o apoio para implantação de Sistemas Agroflorestais são dois exemplos importantes de onde e como a presença do extensionista rural pode trazer benefícios. Colocar os alimentos orgânicos nos projetos político-pedagógicos das escolas traz resultados de curto, médio e longo prazos. Os sistemas agroflorestais representam uma revolução viável para uma nova relação entre as atividades produtivas e os recursos naturais.

A APAER foi criada em 2012, por um grupo de extensionistas com uma visão progressista, que enxergaram que uma nova agricultura precisaria também de uma nova extensão rural. Desde sua criação a APAER já realizou diversos seminários para debater as estratégias mais eficientes de promover a extensão rural. No seu 7º seminário realizado em 2019 a APAER trouxe para debate as conexões entre a Agricultura Regenerativa e a Segurança Alimentar.

Ao longo do ano de 2020, em conjunto com diversas instituições parceiras, promoveu diversos eventos digitais com a presença de profissionais de renome no âmbito nacional, debatendo ferramentas de extensão rural e temas como economia solidária, tecnociência, comunidades tradicionais e a importância das questões de gênero no meio rural.

Um desses eventos deu origem ao E-BOOK ”Mulheres quilombolas: territórios, identidade e lutas na construção de políticas públicas”, editado pela APAER em conjunto com o Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, Sementeia e Sempreviva Organização Feminista.

O uso mais intenso das mídias sociais para superar os desafios do distanciamento social mostrou o quanto a proximidade física, a convivência e as atividades presenciais individuais e em grupo são importantes e essenciais para que os serviços que dependem do extensionista possam ocorrer em toda a sua plenitude, para que a extensão rural tenha eficiência, eficácia e efetividade. Estamos muito preocupados com o futuro da agricultura familiar em São Paulo.

A agricultura é uma atividade de risco e as mudanças necessárias para uma nova agricultura não vão acontecer se ficarmos dependendo dos desejos do livre mercado. As Casas da Agricultura estão fechadas há mais de um ano. O atendimento digital imposto pela pandemia mostrou que a perda de qualidade dos serviços de extensão rural feitos via telefone e via meios digitais é brutal – a agricultura familiar de São Paulo foi abandonada. 

O papel de jornalistas conscientes da importância da extensão rural abriu espaço significativo para o assunto na mídia, para alertar a opinião pública. Substituir a extensão rural feita de forma presencial por atendimento via telemarketing e outros canais digitais é uma proposta tão absurda que o governo teve que recuar da publicação do decreto que fechava as quase 600 Casas da Agricultura da CATI.

A extensão rural da CATI está sofrendo na atual gestão, a sua maior ameaça em mais de cinquenta anos de história. A falta de apoio para a agricultura familiar poderá trazer vários reflexos – aumento no preço dos alimentos (que já está acontecendo), piora na gestão dos recursos naturais,

impactos na quantidade e qualidade dos recursos hídricos. Como diz a sabedoria popular – “A gente colhe aquilo que a gente planta – Quem semeia ventos colhe tempestade”. Os impactos da falta de apoio para a agricultura familiar podem não ser percebidos imediatamente, mas nossas perspectivas para um futuro próximo não são nada boas.

É preciso ficar antenado nas exigências do consumidor. A extensão rural precisa atuar nas formas de produção e nas formas de comercialização – onde os resultados aparecem mais rapidamente.

É fundamental enxergar que a agricultura familiar do Estado de São Paulo é uma das mais diversificadas do Brasil. São Paulo fica em uma região de transição do clima tropical para o subtropical, com uma geografia que proporciona ambientes variados, que podem ser aproveitados para diferentes vocações agrícolas, conforme mostrou estudo feito pela APAER.

Precisamos fortalecer os circuitos curtos de comercialização e os sistemas participativos de garantia, precisamos de apoio para a adoção da transição agroecológica e para apoiar a grande quantidade de produtores que têm interesse em adotar a forma de produção orgânica.

Outro aspecto importante é o apoio a Associações, Cooperativas e iniciativas de economia solidária.

Consultoria independente do Banco Mundial avaliou os impactos do Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável – Microbacias II realizado pela CATI. Essa avaliação mostrou que, no prazo de cinco anos, as mais de trezentas organizações apoiadas apresentaram um faturamento quatro vezes maior do que organizações semelhantes que não foram apoiadas pelo projeto de Extensão Rural da CATI. Estudo feito pela APAER observou que, em porcentagem do orçamento estadual, a Secretaria da Agricultura de São Paulo tem o segundo pior orçamento de todo o Brasil, menos que 0,3% – vive seu pior momento em mais de cem anos de história. Políticas estaduais voltadas para a Agroecologia fazem toda a diferença para o avanço da agricultura orgânica, como pode ser observado nos Estados do Rio Grande do Sul e Paraná.

Nossa esperança é que a visão neoliberal de estado mínimo e de privatização de serviços públicos essenciais como a extensão rural seja revista.

A política de isenção de impostos para agrotóxicos, por exemplo, precisa mudar – é difícil para a extensão rural e para a agricultura orgânica terem que ficar remando contra a corrente. Modernizar a agricultura é mudar as formas de produção e aproximar produtores e consumidores.

Extensão Rural é um processo educativo que deve ser baseado em relações de confiança.

Ferramentas digitais devem servir para fortalecer esses vínculos.

Não podemos deixar que a extensão rural em São Paulo morra – mais extensão rural é mais saúde.

Créditos das imagens: Dayla Ciancio