Sheizi Naka, um apaixonado pela agricultura orgânica e sua evolução. Abaixo em plantação de beterrabas adubadas com o seu farelo de mamona orgânico

 

“O Brasil é um país em desenvolvimento, é um país que está crescendo,

o país do futuro” 

Eu ouvia isso há cinquenta anos, estou com 64 e ainda continuo ouvindo, esse futuro não chega…

por Kátia Bagnarelli para Jornal Onews

 

Filho de japoneses que chegaram ao Brasil como imigrantes, Sheizi Naka herdou dos pais a atividade agrícola e hoje ancora a inovação através do farelo de mamona como insumo para a agricultura orgânica e em transição. Ele nos conta essa história tendo como pano de fundo a história de desenvolvimento do Brasil.

“Meu pai veio relativamente grande com 10 anos de idade, ele e a família toda se instalaram numa fazenda onde cultivavam tomates, no noroeste de São Paulo, na região de Birigui. Minha mãe tem uma história diferente, é a caçula da família e veio bebê de colo.

Eles tiveram uma condição melhor pois ganharam um terreno grande na região de Bauru. A família toda ficou plantando café e criando bicho da seda.

Meus pais vieram para São Paulo, se conheceram naquele processo japonês da apresentação meio forçada chamada miai, casamento arranjado. Se casaram e continuaram morando em São Paulo. Minha formação é química industrial.

Me formei e fui trabalhar numa cooperativa na área de fertilizantes. Ali tinha muito contato com agrônomos, técnicos agrícolas, trabalhava na área de qualidade e tive contato com os clientes que eram os cooperados. Essa cooperativa era bem grande, chamada Cooperativa Agrícola de Cotia, tinha cerca de 16 mil cooperados no Brasil todo. Tinha estações experimentais onde os agrônomos faziam os desenvolvimentos, as técnicas e aplicações de adubos, defensivos e tudo mais.

Minha vida profissional ficou bastante envolvida com as causas agrícolas, nessa época não era muito comum falar de orgânicos, mas já tinha uma certa pegada de fertilizante organomineral que era uma mistura de orgânico com a parte mineral. Era uma geração nova de fertilizantes que já vinha quebrando uma certa tradição dos minerais e teve uma aceitação muito boa.

E esse foi meu mundo durante 16 anos, mexendo com fertilizantes organominerais e minerais convencionais. Me desliguei dessa empresa, e na sequência trabalhei por três anos no Grupo da Votorantin, com a parte de cimentos, o que não me agradou muito, não era a minha vocação.

Apareceu então a oportunidade de trabalhar na empresa que permaneci durante vinte anos.

Me desliguei no ano passado e hoje atuo na comercialização do farelo pela S Naka Promoção e Vendas. Era uma fábrica de óleos vegetais, mais especificamente óleo de mamona. O processo do óleo de mamona se dá através da semente de mamona prensada.

Ao prensá-la se extrai 40% de óleo, sobrando 60% do que chamamos de torta. Essa torta vira um farelo de mamona que é um excelente fertilizante orgânico. Na época entrei na empresa para estruturar a produção de fertilizantes orgânicos.

Fui até o Ministério da Agricultura, abri registro, fiz toda a parte técnica burocrática e passei a gerenciar a parte da fábrica, pois minha formação permitia a responsabilidade técnica. Aos poucos a questão da agricultura orgânica foi entrando no mundo e principalmente no Brasil, pediram para que tivéssemos a certificação. Partimos então para a conquista da certificação, nosso produto é IBD.

A nossa certificação não foi muito complicada porque como nós só tínhamos o óleo de mamona, o produto é de origem 100% vegetal e não envolve nenhum produto químico agressivo. Ele tem alguns

coadjuvantes como os elementos de branqueamento do óleo que são argilas, mas nada que pudesse contaminar o farelo. O que foi complexo veio a seguir, que foi manter esse produto. A empresa foi crescendo e começou a trabalhar com outros tipos de óleos vegetais, óleo de soja, óleo de palma, e nós tivemos que isolar toda a produção do farelo de mamona para manter a certificação.

Nesse momento tivemos um período atribulado, entretanto nada que não tenhamos superado na época. Os agricultores que são essencialmente orgânicos começaram a procurar nosso farelo e os nossos concorrentes não tinham o selo de certificação. Isso foi bastante importante para a disseminação do nosso produto no meio orgânico. Um dos casos de maior sucesso foi com produtores de café

orgânico. Acredito que continua sendo um desafio para nós entender mais sobre a parte da aplicação do farelo pelo produtor e qual é o seu potencial.

Uma característica do nosso produto que os produtores não têm muito conhecimento é a questão do poder bactericida do farelo de mamona. As plantas, muitas delas, têm uma bactéria chamada nematóide que vai “corroendo” a parte radicular. Com isso a planta começa a definhar e a produtividade é muito baixa. A nossa empresa, falando em desafios, observou esse cenário e passou a trabalhar em parceria com a Unesp de Botucatu e com a EMBRAPA da Paraíba.

A parceria com a pesquisa

O trabalho com a Unesp vem de como podemos potencializar a utilização do nosso produto. Não só pelo nutriente que ele fornece, nitrogênio, fósforo, potássio e matéria orgânica, mas também com este olhar voltado para um controle biológico natural de pragas. Essa nematóide é uma bactéria extremamente agressiva que tira 20 ou 30% da produtividade.

Estamos realizando um trabalho com o algodão também. Nós somos fabricantes do produto e enfrentamos o desafio de não conhecer muito a utilização dele na ponta, não na totalidade que gostaríamos.

Com as hortaliças e frutas, temos muita experiência. Por exemplo, sabemos que a soja orgânica tem esse problema, entretanto não temos ainda uma aplicação que tenha peso como o exemplo que temos com o café no Sul de Minas e Espírito Santo.

No algodão, na soja, no trigo ainda não temos tanta penetração em comercialização, esse é um desafio grande: trabalhar no que os agrônomos chamam de grandes culturas, com grande extensão de plantio.

Nossa matriz fica na Mooca em São Paulo, nossa empresa tem mais de 50 anos na comercialização de óleos vegetais. A fábrica tem 23 anos e fica em Itupeva, próxima a Jundiaí também no estado de São Paulo.

Inovação ao lado da EMBRAPA

A nossa parceria com a EMBRAPA está nas pesquisas para utilização do farelo de mamona para nutrição de ovinos e caprinos. O farelo de mamona é conhecido como fertilizante, adubo natural orgânico.

Na alimentação sempre recebeu uma restrição porque existem vários trabalhos que evidenciam que o farelo de mamona para nutrição animal não é adequado porque tem um componente que é tóxico para o animal.

Entretanto, não são todos os animais que não podem se alimentar com o farelo de mamona, para os ruminantes como gado bovino, os ovinos e caprinos, o farelo é adequado. O processo digestivo deles é diferente dos demais animais.

O sistema digestivo é composto por quatro “estômagos” e durante o processo de digestão eles destroem essa substância que é considerada tóxica para outros animais. A EMBRAPA fez esse estudo, fez experimentos com criadores, o resultado foi positivo e publicado no final de 2020, como boletim técnico endossando essa utilização.

Esse agora é mais um desafio, inserir no mercado de nutrição animal, o farelo de mamona. São experiências boas que estou vivenciando, bastante frutíferas e que agregam muito valor tanto pessoal quanto profissional.

Eu gosto bastante de todo esse trabalho, acredito que está no DNA de meus ascendentes, gosto e me sinto à vontade nesse processo. Aprendo muito em campo, há um certo prazer em tudo.

Sobre propósito e Legado

Estou estudando sobre alimentos e nutrição humana, como nossa empresa trabalha com óleos vegetais, ela acaba fornecendo alguns derivados do óleo que fabricamos para empresas que fazem ingredientes para alimentos.

Por exemplo, um dos produtos que sai do óleo de mamona, depois de sofrer algumas transformações, acaba virando emulsificante para chocolate e iogurte.

Por conta disso, os clientes estavam exigindo que tivéssemos uma certificação na área de alimentos, por mim mesmo fui estudar e achei muito interessante. Quero trabalhar alimentos voltados para o orgânico, é um dos projetos que darei continuidade.

Meu projeto particular é ainda ser auditor, instrutor,

principalmente na parte de boas práticas agrícolas e industrialização orgânica.

O otimismo

A herança genética ajuda muito, os japoneses tendem a ser um pouco mais reservados, em meu caso em certas situações cria-se um ambiente harmônico.

Existe um lado, no qual acredito bastante, que é a espiritualidade. Sou um católico praticante e procuro manter práticas de meditação.

Um tempo para reflexões, para pensar sobre a vida, o dia a dia e o encaminhamento das coisas. Isso me traz tranquilidade e por aí vem um certo nível de otimismo.

Nós temos muitas dificuldades, eu já passei por várias, mas acredito que a espiritualidade traz um reforço muito grande, algo que não é mensurável, não há nada físico que possa demonstrar.

Esse momento de pandemia é uma época que ninguém nunca imaginou, nem aqui, nem em qualquer outro lugar do mundo.

Todo o mundo pode esperar uma terceira guerra, armas nucleares, sabemos que há investimento nisso, mas ninguém imaginava que algo de invisível iria causar tamanho estrago, chega a ser indescritível.

Por outro lado, está sendo um aprendizado para a humanidade, é um momento para refletirmos e identificarmos onde estamos errando, o que podemos corrigir para que o mundo seja melhor.

Vejo que na questão da educação ficou muito evidente que o Brasil carece, quer seja por oportunidade, muita gente não consegue acessar internet no século XXI, onde há países como Coréia, Noruega, Dinamarca em que todos já estão vivendo uma geração digital muito mais avançada do que aqui.

Aqui ainda, em alguns lugares do país, não muito distantes das capitais, não se consegue acessar a internet. Isso só vai criar mais desigualdade no nível de educação que já vinha enfraquecida, é notório. Muitos não sabem fazer conta, não sabem a matemática simples, não sabem escrever, literalmente.

Ler uma escrita bem feita é um prazer e felizmente temos a capacidade de entender o que está escrito e até de sermos críticos. Muitos estão se formando no nível básico sem saber escrever direito, haja visto nosso ex-ministro da educação que cometia erros clássicos de português.

Nossa educação está muito longe de ser boa, é algo que o Brasil vai ter que rever com bons olhos. Estamos ainda no sentido contrário, cortando verbas da educação.

E aqueles que têm nível superior, que estão cursando mestrado e doutorado, estão migrando para outros países, pois é onde tem oportunidade de mostrarem para o quê estão no mundo. O Brasil vai ficando cada vez mais

para trás. Eu que sou de uma geração lá de trás, que cresceu ouvindo: “O Brasil é um país em desenvolvimento, é um país que está crescendo, o país do futuro.”

Mas esse futuro não chega…

Eu ouvia isso há cinquenta anos, hoje estou com 64 e ainda continuo ouvindo. E quando vai ser esse futuro? Se a gente está vendo que a coisa não está melhorando, esse futuro está mais distante ainda.

Eu estudei em escola pública, fiz todo o meu fundamental e depois ginásio na escola pública. Eram as melhores escolas, nem tínhamos muitas escolas particulares, a escola particular era quem abrigava aqueles que não conseguiam acompanhar os estudos na pública, que eram os mais fraquinhos.

Hoje, uma pessoa que tem dois filhos para manter numa escola particular precisa ganhar muito bem senão não consegue. Qualquer escolinha custa mais de mil reais.

Esse degrau entre quem pode e quem não pode está ficando cada vez mais acentuado. Essa desigualdade educacional está ficando maior ainda, e quem é que vai ter mais condições de se empregar?

Estamos vendo 20 milhões de famílias passando fome sem qualificação, esse é o lado bastante nefasto que essa pandemia só evidenciou. Se não sabíamos de tudo isso, agora está escancarado para todos.

E saber da verdade não é ruim. Estamos vendo uma melhora significativa no campo hoje, filhos de agricultores que não tinham formação e hoje são agrônomos, técnicos agrícolas, zootecnistas.

O mundo agro está melhorando no nível de escolaridade. Atraindo também quem está fazendo a parte agrícola e investindo na agroindústria.

O futuro

Os seres humanos precisam realmente valorizar tudo aquilo que o bom Deus colocou para nós no mundo. Tudo aquilo que ele nos proporciona, que pudéssemos valorizar isso todos os dias e que conseguíssemos conviver com o mundo de uma forma mais tranquila e pacífica com respeito.

Que cultivássemos o princípio do respeito de uma forma mais intensa do que hoje observamos. Respeito ao próximo, respeito à natureza, aos recursos que nos foram disponibilizados. Aí está a chave da felicidade.

Para uma vida com melhor qualidade, o respeito é tudo.

Desde uma planta que fala e ouve mas nós não conseguimos perceber, até nossos próprios filhos, pais, parceiros, profissionais que trabalham conosco.

Se tudo isso fosse respeitado teríamos um mundo muito melhor. “

Aplicação do farelo de mamona
Sheizi Naka, um trabalho relevante que envolve pesquisa, aplicação e desenvolvimento ao lado dos agrônomos brasileiros
Cultura adubada com farelo de mamona
O farelo de mamona pronto para uso
Imagens de arquivo de Sheizi, agricultura orgânica certificada com farelo de mamona como solução
Adubação com farelo de mamona
Farelo de mamona representado por Sheizi no Brasil